segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Embalagens.

Mais triste do que viver dentro da sociedade dita do consumo é viver dentro da sociedade que, além do consumo extremo, não se importa com o que consome e sim, com a embalagem do que consome.
É só reparar: Não consumimos compulsivamente alimentos saudáveis, esportes prazerosos, roupas confortáveis, livro, música e arte que nos faça bem. Consumimos o que, perante aos olhos alheios tem a embalagem mais bonita. As vezes, olhando as filas imensas em supermercados, shoppings e lanchonetes de fast-food eu percorro um caminho dentro do mais humano possível que consigo tirar de mim como em uma viagem ultradimensional. E ao abrir os olhos, não vejo pessoas consumistas, eu vejo bois. Bois mastigando lentamente uma grama que outrora era local de excressão de outros animais, ou ainda o chão, de algum fazendeiro com as botas cheias de lama originadas do chiqueiro que antes pisara. E eles mastigam e não sabem se cospem, se engolem, não sabem o que fazem, mas mastigam. Mastigam lentamente e tediosamente como se não reparassem, não saboreassem, não sentissem a grama. E, ao contrário dos bois, a grama, a grama nos é fútil, desnecessária, impensada, mastigada e engolida.
Mais ou menos assim, a sociedade do consumo a qual formamos, ela consome sem parar. Mas não sabe o quê, não nota o quê. Se depara com embalagens e as embalagens, elas sim são importantes. Confundem restos de alguma digestão mal terminada com comida própria para ser mastigada, e além de mastigarem, engolem. Vomitam, engolem, Vomitam e engolem o próprio vomito novamente. Sem digerir nada afinal, embalagens são só embalagens. Totalmente vazio, incompleto, indigerível mas, mastigado é o nosso compulsivo consumo em consumir.
E as pessoas, essas que vemos nas ruas todos os dias são só embalagens, vazias e as mastigamos sem reparar no vazio ou não, sem se importar. A lei é consumir e não qualquer coisa. A lei é consumir e tornar-se embalagens.
Não faz sentido e nem deveria. Nada é sentido. Os bois só mastigam grama pisada, que já fora grama um dia e agora, agora é só uma mistura de restos, de restos de embrulho de presentes mal feitos, laços de fitas e caixas. Sem nutrientes, sem nada que nos faça bem, que nos acrescente, que colabore para nos manter vivo. Só restos. e vamos mastigando, cuspindo, mastigando, cuspindo, mastigando e é bom saber que cuspimos pra mastigar de novo. Engolimos e vomitamos, sem digerir. Mas somos bois, bois de uma espécie que não é herbívora e continua comendo grama, sem pensar. Não faz sentido, mas também não é sentido. Acontece que o não fazer sentido é a grande jogada da coisa: Não importa. Não importa se não preciso de grama, se não quero a grama, não importa! Somos bois, vivemos bois e a regra meu irmão, é mastigar.



"E a boiada, de gente
pálida, sem vida, sem gente
segue a estrada, sem questionar
vai só seguindo,
até o penhasco chegar."
Seja o que quiser ser, viva o que quiser viver, plante sempre o que desejar colher; Liberdade só depende de você.