domingo, 1 de março de 2009

Sobre reflexos mal refletidos.

Sei, ou deveria saber ou ao menos, creio que sempre achei saber que essa superestima que o homem se coloca todos os dias na frente do espelho ao se tornar um 'homem' de verdade não poderia fazer bem; nem muito menos real como se mostra.
Por mais que, ao ver seu próprio reflexo face a face, o observador não se goste, não se admire e nem tenha o mínimo de agrado pela própria imagem materializada ali, ele sempre achará ser dono de si, livre pra escolhas, livre pra pensamentos e até livre pra gostar de si ou não. É o que menos importa o 'gostar ou não de si', o que importa é se olhar nos olhos, você frente a você e dizer, com toda certeza: '- não importa o que sou, o que pareço ou o que eu possa parecer; Sou sujeito de mim mesmo e não devo nada a ninguém, afinal, sou dono do meu nariz!.' É sempre assim, mesmo que essas certezas sejam totalmente falsas; mesmo que essas certezas ditas a si mesmo cara a cara sejam carregadas de inseguranças escondidas por de trás de todo o 'parecer'. Quanto ao não dever nada a ninguém, é bem relativo. A sociedade aprendeu - ou nem teve tempo pra isso - a levar tudo pro economico e o 'dever' um abraço nem seja dívida. Ninguém precisa muito de abraços hoje em dia, é verdade.
Quanto ao 'não me importo com o que pareço' não existe mentira mais escrupulosa e sínica do que essa. Afinal, vivemos ou não na sociedade onde os homens se afirmam pelo que aparentam ser? Espectadores da própria história, mentem até mesmo pro próprio reflexo, esses homens! Mentem, porque até para o expectador denominado 'eu' pois não se deve vacilar: A vida é uma representação todos os dias. E se repete, se repete, se repete...
Quanto a afirmação 'sujeito de mim mesmo' posso dizer que não há nada mais inquestionado nos últimos séculos - Ou até mesmo, nos séculos de Homo Sapiens vividos até aqui - e muito menos algo mais sem nexo. Ninguém, nem um homem, por mais distante do macaco que seja e por mais que se intitule 'ser racional' é sujeito de si mesmo, nem da própria história.
Parece infundável dizer isso, mas não é. Seu reflexo no espelho é sempre mais real do que você e ao te ver, - repare bem na profundidade dos olhos dele, o quão são intensos - ele sabe bem que você não é o que diz ser nem o que quer parecer. Você até aqui não foi. Você até aqui não viveu.
Tudo isso porque a lógica que rege nossa vida e nosso jeito de se refletir é uma lógica autônoma, sujeita de si mesma, que anula todo e qualquer 'eu' que possa existir no humano.
Roubando nossas vidas dia após dia, essa lógica nos faz a cada segundo e cada vez mais, mercadorias, mercadorias e mercadorias; pessoas prostitutas que mais do que o corpo, vendem a vida e se conformam com os restos achando que os restos são o todo possível de um 'mundo cão' como o nosso.
Mundo cão. Taí uma coisa infundada! Ora, se somos tão 'sujeitos de nós mesmos' por que esse mundo é tão 'cão' assim? Gostamos de uma 'orgia masoquista' que envolve todo e qualquer ser humano existe? Com tantas opções de escolha, já que somos um 'eu' a dirigir nossa própria vida, gostamos tanto assim de sofrer?
- Ah! Mas a culpa não é nossa, é de quem tem dinheiro, é de quem tá no poder. Ou então do povo mesmo, que não escolhe bem seus representantes...
Sujeitos de si mesmos não colocam a culpa em outrem, fazem consciente o que querem e se relacionam conscientemente uns com os outros. Não precisam de representações e muito menos de culpar alguém. Aliás, tendo dinheiro ou não, ninguém é sujeito nesse palco de agora, ninguém age por si, enquanto ser humano. Não existe o 'mal' e o 'pobre coitado' como quer crer quem acredita que a culpa tá 'lá em cima', nas classes opressoras. Não existe pobre sem rico, nem rico sem pobre; logo são ambos, duas faces da mesma moeda.
Moeda; outra coisa aí que é sempre muito intrigante. Quem tem dinheiro, compra o que quiser, inclusive aparência e falsos reflexos. Quem não tem, se conforma. Mas ambos, pode notar, perdem sua vida, vendem sua vida e não vivem. Por dinheiro, abrem mão do ser sujeito histórico e se anulam, tornando-se mero espectros, sombras a alimentar esse 'mundo cão'.
'Mundo cão', cabe lembrar, que deveria ser comandado e mudado por todos nós, se fossemos sujeitos, se fizessemos a nossa própria lógica; mas não fazemos.
E a culpa não é da ambição humana de querer 'sempre mais dinheiro', da perversidade do humano ou de qualquer blá blá blá que se ouve por aí. Até porque, se fosse mesmo ambição, será que prefeririamos ser sempre 'zumbis' à podermos ser o que se quiser?
E continuamos a mentir falsas afirmações mediante nossos reflexos, por não querermos assumir que, dentro dessa lógica não são 'sujeitos de si mesmo' que dominam e sim, essa lógica abstrata, que se tornou, além de real, nossa própria realidade.
Reflexos continuam aí, todos os dias; e sempre mentindo ao se olhar nos próprios olhos sem ter sequer segurança no que diz; mas diz.
Da próxima vez, é bom que lembrem-se ao observar e olhar bem nos olhos do que se reflete ali, frente a frente, que sombras, sombras não têm reflexo.



Tira o tempo, que o tempo voa
e quem voa não tem lugar aqui
Se nos escapa, esse tal do tempo
Levanta vôo e a gente ri
Sem saber e nem questionar
Se há sujeito dentro de si.
Ou se o tempo,
o nosso tempo
está fungindo, e a gente aqui.
Seja o que quiser ser, viva o que quiser viver, plante sempre o que desejar colher; Liberdade só depende de você.