domingo, 8 de agosto de 2010

flor.

Aquele dia entendi perfeitamente o porque das flores rasgarem o asfalto.
Entendi o suficiente pra lutar contra minha condição de pedra morta, pedra pálida. Entendi o suficiente para querer ser mais do que asfalto. É preciso rasgar as construções que me fizeram esse mundo e esse mundo falido, apático. Mundo morto. É preciso ressussitar a vida e antes que me entendam mal, ressussitar a vida exige uma luta constante em favor da mudança. Não qualquer mudança, mas aquela em que caiba a liberdade de poder decidir sobre a vida, A liberdade de se rasgar o asfalto, quebrar o tédio, quebrar o feio. A liberdade de ser flor.
Uma flor singela, porém forte o suficiente para romper. Contradizer o que está posto, contradizer o velho mundo, a velha lógica, as velhas mediocridades. Contradizer o já dito e redito. Reafirmado todos os dias. Contradizer as mentiras que os homens contam e a submissão imposta àqueles que não vêem escolha. Contradizer o parado, o estático e o fatalismo. Contradizer o que sem importância se torna cerne. E não contradizer por contradizer, mas contradizer pra superar.
Uma flor.
Sim uma flor!
E que se danem o que dizem sobre isso. Dirão ser inocência mas são poucos os que conseguem enxergar além do asfalto. Sei que não basta enxergar, por isso quero ser flor.
Flor, aquela flor!
Sei que pisarão na flor e tentarão matá-la, é bem verdade.
Mas não é qualquer flor. é flor entendida, flor cabida e medida, além de seu tempo.
Uma flor.
Aquela, chamada revolução.

sábado, 10 de julho de 2010

p.c.

Mal sabe respirar,
pobre coração.
Vive em um labirinto infinito
procurando ar.
Ar que falta
Ar que faz apertar,
a falta que tira o ar
o ar que falta
e cansa
e para
e sente.
e segue, o coração.
Mal sabe caminhar
Mal sabe dizer um sim,
um não.
Mal sabe contar.
E vai, pobre coração
que de coração não tem resto
só sobra.
E sobra, a falta que faz.
Esse pobre coração que não se aquieta
Vive em silêncio
Amargando a inquietude
da falta de ar em pleno vôo.
esse pobre coração.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Fardo.

Eu disse.
O fardo era pesado demais. Bem que avisei. As circunstâncias não ajudariam muito e eu agiria normalmente, por mais que não quisesse. Normalmente. Nunca de má fé.
Repugnei-me de mim mesma ao olhar-me frente a frente no monstruoso espelho que me engolia. Como eram tristes meus olhos! Eu, que nada mais era do que a absurda contradição entre estar vivo e não poder viver. Eu, que muitas vezes não tinha forças pra garantir o próximo passo. Renego, renego, renego e me calo. Isso não pode ser eu.
Mas eu mesmo disse,
disse sim.
Era tudo pesado demais e mais pesado do que a cabeça de um alfinete que guarda o Universo não poderia ser. Era isso, era bem isso o que eu sentia: um alfinete com um Universo concentrado, pronto pra explodir. Mas não explodia!
Não explodia e aí de mim! Aquele peso todo e eu e só. Era um pobre espírito que mal sabia dissertar sobre si mesmo.
Revigorava-me perceber a vida possível fora daqui.Ao mesmo tempo, ela estava aqui porque esse fora não era exterior, era apenas a negação do aqui e do agora e a destruição da caduquice tautológica e drástica que se faz. Revigorava-me saber que tudo pode ser diferente mas o alfinete continua aqui. Pesando e pesando e se fazendo parte minha.
Era pesado demais.
Mas continuaria a agir normalmente, só eu sei. Calaria pateticamente.
Covarde. Covarde e só. Ou não. Talvez as explosões tardem, mas nunca deixem de vir.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Um pouco.


Tinha sempre mais pra dizer, mas não dizia.
As palavras simplesmente não saim ou ela própria negava a si com um não expressar-se constante. Talvez soubesse que embora pudesse dizer tudo que guardava ali, era em vão.
Dizer o quê das coisas óbvias, afinal? Não era sua culpa se ninguém enxergava.
Calava-se e contentava-se em observar a reação do todo em relação a si mesma. Qual era o papel que cumpria na história? Qual era a história que escrevia no papel?
Meras abstrações. Não respondiam nada! Por mais que pensasse, pensasse, pensasse em tudo e isso e mais, tinha que correr no final.
E corria como louca, corria de encontro a um não-lugar, a algo que negasse tudo ali, que destruísse tudo aquilo que desmoronava de uma vez em cima dela.
Mas seus pés eram frágeis, embora ninguém soubesse ou houvesse reparado. Eles feriam demais, não aguentavam muito mesmo ela insistindo tanto em correr.
Talvez fosse hora de parar pra respirar e andar à passos firmes. O coração batia forte e o sangue pulsava como nunca. Apesar do medo quem decidia agora não era o tempo dos relógios e sim aquelas batidas profundas. Aquelas, do coração.

terça-feira, 27 de abril de 2010

balas.

Acordou às quatro da madrugada com o barulho das balas varando a cozinha. Temeu, não o medo que se sente quando nos vemos perto do fim ou perto de algo que tende ao fim mas sim o medo de se ser menos do que uma bala.
Uma bala de chumbo, bala comum, dessas que varam a cidade todos os dias e por isso mesmo temeu mais do que nunca ser menos do que aquilo. Como poderia ser menor do que uma bala? Como poderia perde-se em uma bala de menos de um centímetro de diâmetro.
Empalideuceu-se na cogitação do talvez acabar-se ali, menos do que uma bala, uma simples bala. Não queria acreditar que aquela bala era maior que o mundo, seu mundo.
Seu coração batia forte, não por medo de acabar ali. Não temia o fim em si, não temia deixar de existir pois mal sabia o sigificado de sua existência mas temia sim, ser menor do que uma bala, deixar que a bala levasse sua existência embora, varresse teu eu e terminasse dentro daquela bala. O que era a vida afinal? Se em menos de três segundos poderia terminar em um projétil, algo inanimado, sem vida. A vida poderia terminar na não-vida, o que poderia ser viver então?
Poderia gritar, correr, fechar os olhos mas não. Ficou ali, parada. Não podia se mexer pois sentia-se pequena demais para mexer.
Viu tudo que vivera, tudo que fora e sentiu-se no vácuo. Àquele silêncio que tampa os ouvidos e deixa surdo se fez e pôde sentir sua respiração como nunca. Sorriu então.
Havia entendido que ser menor que uma bala não significa que a vida seja vã, pequena ou sem nexo, mas o contrário. É a tenacidade da linha que separa o vivo do não-vivo que faz da vida uma dádiva. Ou mais que isso, mais do que isso porque a vida não é divina, nem sublime. É inconstância, furacão.
Atingiu-a então.
Dentre o mar de balas que varavam a cozinha, uma delas atingiu em cheio o seu coração. Lentamente diminui a velocidade das batidas e no sangue, via-se a vida escorrendo. Respirando com dificuldade, estendeu as mãos, o máximo que pode e sorriu.
Uma última lágrima, anunciando o fim da vida ou o começo dela. Sentiu ali, naquele instante último o quão intenso era viver. O quão grandioso é estar vivo.

sábado, 17 de abril de 2010

d água.

Bateram à sua porta tarde da noite já. Atendeu entre a brecha da porta, desconfiado como sempre. Quem poderia ser essa hora afinal? quem poderia gostar tanto de incomodar? Viu que era uma mulher, de casaco azul e um semblante tão simples e sem expressão que era quase invisível. Não a conhecia, mas a odiou desde a primeira vez.
Não perguntou o que ela queria, apenas balançou a cabeça como quem pergunta: O que foi? E manteve o olhar carrancudo no rosto.
- Moço, me arranja um copo d água, por favor.
Ele não pode acreditar naquilo. Meu Deus do céu, pensou, isso lá eram horas de bater na porta de alguém pra pedir água?!
- E pra que diabos você quer água?! Perguntou à mulher com indignação.
- Tenho sede, ela respondeu.
Tinha sede sim aquela mulher, mas isso pouco importava pra ele ali, naquele momento. Aliás, pouco importaria a sede de alguém em qualquer tempo. Era tão perdido em si mesmo que tanto fazia sentir sede ou fome, tanto fazia viver ou morrer. Odiava o mundo e tudo que o habitava. Odiava a vida como se fosse algo separável e sujo. Algo exterior e contaminoso. Algo que merecia seu desprezo.
- Entre.
- Desculpa moço, não queria tomar o seu tempo. Só quero um copo d água.
- E porque não tomar meu tempo? Tome, tome logo, leve todos esses relógios daqui vai, dou a água mas também te dou meu tempo, esses relógios são teus agora. Não aguento mais tanto tic-tac na minha cabeça e não quero esse tempo miserável. Tome! Leve-os daqui, esses relógios. Leve-os para longe!
A mulher pegou todos os relógios, recolheu-os em seus braços e disse:
- Está bem, eu os carrego comigo. Mas quero um copo d água.
É claro que apesar de tudo ele iria dar um copo d água pra ela mas era inevitável fazer uso daquela oportunidade única de escarrar o mundo pra fora.
- Está bem, eu vou lhe dar sua água mas tente me ouvir um instante. Tente entender que não é porque eu lhe dou um copo d água que aceito o mundo. eu não sei quem você é, mas você bateu em minha porta e me fez lembrar o quanto eu odeio o mundo. E eu te convidei para entrar como quem aceita o mundo mas isso não é verdade. Isso é uma tremenda mentira. Eu não aceito o mundo. Eu não aceito você. Minha ira é tão grande que se eu pudesse eu amassava o mundo como se amassa folha de papel e jogava numa lata de lixo, tampava e esquecia. Coisa grotesca ter que viver! E veja bem, eu sou obrigado a viver todos os dias e toda vez que respiro sinto raiva de meus pulmões funcionarem, sinto raiva desses relógios que te dei também. Perda de tempo querer ganhar tempo. A gente perde sempre nessa imundisse de mundo! queria explodir o mundo, chutar o mundo, queria cuspir no mundo!
E realmente cuspiu, na mulher. No entanto seu cuspe não teve forças pra chegar até ela e escorreu pelo seu queixo, descendo até o peito.
- É sempre assim, a gente cospe no mundo e ele chove na gente!
Mas que seja, tanto faz e não é porque te deixei entrar que aceito o mundo, tá entendendo?
A mulher disse delicadamente:
- Estou com sede. Preciso de um copo d água, por favor.
Ele então se recompôs e foi buscar o copo d água jurando a si mesmo que não, jamais, não aceitava aquele mundo imbecil.
- Está aqui sua água.
A mulher pegou o copo com vigor e bebeu a água de olhos fechados como se sentisse cada gota lavar sua alma.
Devolveu o copo. Olhou bem pra aquele homem e disse:
- É como a vida que chega sutil, em gotas d água e de repente chove em temporal. Mas não deixa de ser vida, lúcida ou em delírios, se bastando por si. Só a vida, capaz de mudar o mundo e fazer do desejo intenso de mudança, explosão.
Com os olhos cheios d água, ele caiu no chão.
Ajoelhado, como numa prece, disse:
- Eu amo você, vida.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

sp.

Caminhei por entre aquela cidade como se descobrisse um mundo novo, não bastava apenas caminhar, eu tinha que sentir um pouco de mim naquilo tudo. Tinha também que sentir que tudo saía de dentro de mim ao mesmo tempo que me engolia. Era deveras aterrorizante, mas um terror que corroía sem que se percebesse. Era curioso e isso me atraía.
Aqueles arranha-céus arranhavam mais que os céus, arranhavam algo dentro de mim que não sabia o quê. Um quê de vazio ou de não preenchimento sempre relutava pra ser sentido, vivido e interagido no cotidiano. O que eu poderia entender daquilo tudo? Eu era só mais uma num todo tão conturbado.
Eram tantas coisas diferentes que a cabeça doía. Tantos anúncios e relógios que o amargo gosto de perde-se aos poucos pairava sempre, reinava sempre. E aquilo tudo parecia tão maior do que eu, aqueles prédios eram tão maiores do que eu mas não me deixei intimidar, acredite. Não me deixei intimidar dessa vez. Dessa vez tentei sentir o mundo nas mãos. Sim! Aquilo tudo, aquele amontoado de coisas cabia sim na palma da minha mão, pela primeira vez.
Olhei pros carros solitários e reparei, uma pessoa em cada um, cada uma fazendo alguma coisa pra passar o tempo no trânsito parado. Será que sonham, pensei. Será que sentem? Cada um é tão particular e é tão absurdo meu deus, tão absurdo pensar em como nos faz tão igual a grande máquina do mundo.
Reparei que a cidade das pluralidades e das milhares e milhares de pessoas era também a cidade da impessoalidade. Era difícil, muito difícil conhecer alguém ali. Eram só pessoas passando, muitas, muitas delas passando, passando e só. E não eram rostos apenas, eram rostos cansados, amargos com um certo sabor de desilusão. Até os sonhos, será que até os sonhos a grande máquina era capaz de roubar?!
Não tinha resposta pra todas as perguntas que ficaram martelando em minha cabeça enquanto andava por aquela cidade. Mas tinha em mim um desejo de mudar tudo aquilo, que de tão grande cabia na palma da mão. Tinha também o olhar curioso de menina que descobre o quão intenso é o próprio descobrir.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

hã.

Absorvi o que pude daquelas palavras, suguei com toda força aquelas palavras que não me diziam nada. Tentavam e aquela tentativa incontrolável de dizer alguma coisa foi a que me fez absorver palavra por palavra. Mas quando mais absorvia mais me via inundada de um vazio que só me puxava. Lamentei não poder fazer mais do que balançar a cabeça e ouvir. Ouvir o máximo que eu pudesse, ouvir cada palavra e tentar apertá-las até que dali saísse alguma coisa. Mas nada, nada acontecia. Eram só palavras vazias, coisas não inteligíveis, indecifráveis e vazias por si. Eram distantes e eu, eu só balançava a cabeça.
De que adianta dizer: - perdão, pode repetir. E começar tudo de novo, tentar absorver novamente alguma coisa daquelas palavras que não entravam, não se encaixavam, não diziam nada! E então, eu fingia entender e concordar com cada palavra. Não podia discutir aquilo que não dizia nada pra mim. Não podia discutir sobre coisas que me pareciam vazias, absortas e muitas vezes patéticas.
Comecei a sentir pena, compaixão. Não sabiam se comunicar, pobres homens, não sabiam dizer nada. E me senti estranha por querer gritar ao menos uma vez que todas aquelas conversas eram monólogos afinal, eu estava ali e não estava, eu era ali e não era.
Quis chorar, mas não haviam lágrimas e me surpreendi com a dor no peito que sentia. Surpreendi por ela ser tão grande e não querer sair.
Reparei um pouco mais e notei. Notei que não era só eu que não entedia nada, não era só eu que fingia! Vi diversas pessoas conversando e balançando a cabeça. Ora, era claro que elas estavam fingindo entender.
Então não me senti tão só, não era só eu que não compreendia, não era só eu que não absorvia, eram todos os homens. Todos, sem excessão, fingiam entender o que sequer escutavam atentamente.
Foi então que uma estranha sensação me invadiu. Pude ver que não só eu, mas sim todos os homens haviam esquecido a própria linguagem. Os homens haviam esquecido a linguagem com que os homens se comunicam. Não falavam entre homens, falavam entre coisas, coisamente.

domingo, 11 de abril de 2010

palavriado.



Algumas palavras não bastariam, mas era apenas o que tinha naquele momento. Imensidão de pensamentos mas poucas palavras. Nunca saiam como deveria ou planejava. Teimavam em contradizer o que se sente e descrever o que se forma na cabeça, mas não conseguiam.
Odiava, com toda a sua força as palavras. Eram a voz, a voz do mundo e da vida, mas não expressavam por completo e isso a deixara agonizando, sozinha, por um longo tempo, várias vezes. Triste complexidade que insistia em pairar.
Eram letras, números, pontos e etc que a deixavam perdida, pois não podiam dizer mais do que se espera ouvir de alguém. As palavras pouco surpreendiam, eram sempre iguais.
No entanto, era isso que tinha naquele momento: algumas palavras. Palavras essas que tentavam expressar o que não lhe deixava dormir e o peso do mundo que se faz quando se pensa sobre o mundo e sobre si. Sobre mudar a si, mudar o mundo, mudar, mudar as coisas e mudar mais um pouco, mudar profundamente, mudar impacientemente. Impacientemente, perdeu a paciência. Algumas palavras não eram o suficiente, nunca seriam e quanto mais ela dizia, mais se repetia e mais se irritava! E se talvez se calasse? Se talvez deixasse de dizer, de repetir, de reverberar as coisas? Se assim fizesse cairia no luto de poucos, que esquecem a linguagem dos homens. Mas hoje, a linguagem dos homens é a linguagem das coisas e isso, isso não é certo! Mas como mudar se as próprias palavras são iguais, expressam as mesmas coisas, o mesmo tempo, as mesmas causas.
Tanto faz.
Eram apenas poucas palavras que tinha naquele momento e colocá-las pra fora era tão difícil quanto mudar o mundo. Estava emocionada, talvez desde que falara pela primeira vez, mas ali, suas pernas tremiam. Não estava frio, mas haviam borboletas em seu estômogo e algumas lágrimas insistiam em querer descer enquanto se preparava - Sim! exigiam um grande preparo àquelas palavras... Era estranho se sentir assim porque as palavras nunca foram suas amigas íntimas, elas sempre embolavam o que era sentido e agora, naquele momento ímpar, eram só algumas palavras que ela tinha e no entanto tinha que escolher com todo cuidado, com toda delicadeza, com todo zelo possível.
Aquelas poucas palavras, as únicas que tinha naquele momento, iriam responder a pergunta que acabara de ouvir do atendente daquela lanchonete no centro da cidade:
- Você quer alguma coisa?
Bem, querer alguma coisa. Era claro que ela queria, ela queria tantas coisas, ela queria dizer tantas coisas e queria contar tantos sonhos naquele momento! Queria poder dizer que desejava ter a vida nas mãos e sentí-la como ninguém a não ser nós mesmos podemos sentir e que queria tudo diferente, um lugar diferente, onde seres humanos existissem de verdade. Verdadeiramentes humanos, sabe como é, nada de coisas no comando, nada de tempo das coisas, nada de sofrimentos e sentimentos banais. Eu queria também, ela diria, eu queria também engolir o mundo inteiro com a boca, mastigá-lo e cuspi-lo totalmente refeito, novo, diferente. Algo que nascesse de dentro de mim antes de tudo sabe? Algo que ultrapassasse qualquer regra de liberdade que torna a liberdade tão frívola e inalcansável. Queria também ter asas e voar tão alto como se eu não podesse voltar ao chão e ao mesmo tempo eu queria não sair do chão enquanto eu voasse. Queria as coisas por inteiro, por fim. Nada tão separado, fragmentado e morto como é. Ela realmente queria dizer tudo isso e tudo isso, sabe moço, tudo isso não chegaria perto do que sentia naquele momento enquanto as pernas tremiam. Sim, minhas pernas tremem enquanto você me pergunta o que eu quero moço, tremem porque eu quero tanta coisa que não consigo expressar! Tremem porque quando penso no que quero lembro que tô viva e que sou vida, mais, muito mais do que apenas existir, eu tô tão viva! E meu coração pulsa de um jeito que me lembra que não tem volta o caminho da vida. Tanta coisa, tanta coisa, que a lágrima rolou sem que percebesse.
- Você quer alguma coisa? Disse novamente o moço atendente e isso a fez despertar.
Lembrou que tinha apenas algumas palavras e que deveria escolher com muito zelo, muito cuidado, com muito sentimento. Eram as únicas palavras que podia usar naquele momento e criava coragem pra dizer o que se passava na cabeça, criava coragem para proferir como discurso épico triunfal aquelas palavras, aquelas poucas palavras que tinha ali, naquele momento que passava como furacão e brisa.
- Não, obrigada.
Foi isso que disse por fim. E saiu da lanchonete emocionadamente feliz. Era isso que tinha a dizer porque sabia que por mais que disesse, nada iria sair, as palavras nunca iriam preencher o que sentia.
Saiu pulando pelas calçadas enquanto sentia a respiração. Com a mão no peito então, sentindo as batidas daquele órgão esquisto e pulsante, repetiu em pensamento: eu tô viva.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Medrosamente.

Ao toque de recolher todos foram para casa. Mas não havia toque de recolher, não se ouvia barulho nas ruas desde o pôr do Sol. Só eles ouviram e se esconderam. Tracancaram suas casas, esconderam sonhos e assim, esconderam-se da vida. Não importava mais, o medo havia dominado aquele lugar.
Ao sinal de qualquer tremor, se apavoravam. Até descobrirem que na verdade não, a Terra não estava tremendo e o mundo ainda não ia desmoronar sobre suas cabeças, na verdade era só alguém que tinha pisado um pouco mais forte e seus passos foram sentidos.
Pediam perdão por tudo, e permaneciam calados e com cara de luto eterno quando perguntavam sobre o que pensavam sobre o mundo. Vire e mexe alguém perguntava por incrível que pareça, vire e mexe eram obrigados a pensar sobre isso e sentiam pavor, pavor pela mudança, pelo novo, pelo mundo. Sentiam pavor pela vida inteiramente vivida.
Pediam perdão ao Estado quando infrigiam regras lutando por verdades acreditadas, por novos mundos e novos cotidianos. Pediam perdão por faltar o pão, afinal os justos não passam fome e pediam perdão à Deus pelos desejos da carne, amém. Quando ouviam notícia de algum menino de 12 anos que tivesse roubado algo por aí ou matado alguém diziam ser servo do diabo, usado pelo 'cão', mas não se falava em quem seria o 'cão' da história. O verdadeiro diabo e seus verdadeiros desejos eram sempre camuflados e todos aqueles que se escondiam ao toque de recolher eram submetidos ao dom da honestidade. Afinal, pediam perdão, eles sempre pediam perdão por serem roubados.
E olhavam os ponteiros do relógio como estátuas e então corriam, corriam porque o tempo corria também e eles precisavam se redimir, precisavam pedir perdão, pagar penitências, precisavam fugir da vida. Não percebiam que aquele relógio marcava um tempo não deles, um não-tempo, o tempo das coisas. Tempo que fugia como o tal diabo foge da cruz, tempo ilusório. Tempo que não permitia haver tempo de se construir a história. E de transformar a história.
O medo, ininterrupto em suas ações continuava dominando, mente e corações daqueles habitantes da desolação. Cegava, mais do que qualquer outra coisa, esse medo e não permitia que fosse vista a servidão voluntária dos que sempre pediam perdão.
E quando ouviam o toque de recolher que nunca havia tocado, se escondiam, trancafiavam-se e não mostravam seus rostos, suas idéias, sua vida. Porque era o tempo das coisas que ditava a hora de se recolher. Era o tempo das coisas e não da vida que fazia do medo senhor absoluto das multidões.

Até quando?

...


Tic Tac.

Desventuras

- Era meu Amante amado,
e não meu Amado amante.

Mais do que ninguém, ela sabia a diferença.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Vida.

Ficou estática. Não porque se esquecera como se mexer mas pelas pernas bambas diante da visão: era ela, nua, diante do espelho, viva. Estava viva e só agora percebia que estar viva só não bastava. Era ela ali, sim. Mas era mais que olhos, boca, nariz, seios, ventre, sexo, pernas e órgãos, órgãos e órgãos. Era ela mais nua do que nunca, mais viva do que nunca e não por descobri como que por encanto que estava viva e sim por reconhecer a si mesmo como vida. Era vida meu deus e tinha tanta sede, tanta fome de vida e estava nua.
Inefavelmente sentiu que jamais estivera tão nua e tão viva. Naquele instante teve certeza de que poderia voar quando quisesse, poderia correr quando e como quisesse e poderia viver mais do que nunca, como nunca, poderia ser vida e isso a deixava sem movimento. Extasiadamente sentia sua respiração ofegar e podia sentir batidas vindas do meio do peito. Não sabia o que era aquilo afinal, tinha descoberto cedo ou tarde que o amor não é feito pra quem tem coração pois quem o tem, não aguentaria o amor e ela o sentiu bater ao mesmo tempo que sabia ser feita de amor. Aquela confusão inigualável fez dela um segundo ímpar, paralisação do tempo intacta, observante de si mesma sem saber.
Como era bom estar viva e saber que isso não bastava. A vida, descoberta nos seus inesperados era tanto mas era um tanto quanto vazia de sentido sem transformação. A vida insurgia, renascia e ela ali, naquele quarto, em frente ao espelho, nua, descobria renascer. Descobria a vida e descobria nua. Era tão bom desarmar a si mesmo e colocar de lado aquele casaco pesado que insistimos em carregar por puro orgulho ou seja lá o que for, aquele tecido feio, enxarcado da lama mais terrível que humanamente podemos conhecer. E ela não, estava nua, sem o casaco pela primeira vez.
Começou a dançar, sozinha no quarto e nua. Como sempre fizera, mas desta vez sentindo cada passo. Dançava escondida uma dança sem música pois seus passos eram descompassados, desritmados, eram passos de quem dança nu. Olhou pro teto enquanto dançava e pôs-se a rir, a rir como nunca e se emocionar agradecendo a si mesma por estar viva, por estar vida. Ah! Como era bom ser vida ali e descobri assim e saber que estar viva não basta, era bom ser transformação. Sentiu a lágrima rolar pelo rosto e sorrindo disse a si mesma:
- É a vida que me chega na frente do espelho e me encanta por não se bastar.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Perdão


Perdão por não saber muito sobre o mundo. Na realidade ele é grande demais e não consigo abocanhá-lo de uma vez só. Quando penso que sei certas coisas, deixo de saber no instante seguinte justamente porque nada me serve mais. Mesmo sabendo que mudá-lo é o único caminho eu não sei por onde começar. A Terra é redonda, teria que reconstruí-la novamente, refazê-la e com tal zelo que exige tanto e quanto mais de mim que não sou capaz, muitas vezes, de assim ser.
Perdão por não saber nada sobre mudança. Eu sei que ela tem que acontecer e começar por mim mas sempre ando a procura de algo externo que me guie na mudança. Não há de chegar, tenho que partir da negação do mundo, da negação do que se é posto pra entender um pouco mais sobre mudança e mesmo assim, eu sempre me perco.
Perdão por ser fraca, covarde. Eu deveria lutar mais, doar mais e mesmo assim me travo, estagno e fico passivamente me angustiando com o mundo que exige mudança. Logo eu, que como tantos outros me angustio. A maioria das vezes, me vejo perdida sem saber por onde começar.
Perdão por todas essas baboseiras enfames, essas angustias humanas que de tão humanas precisam deixar de existir. Perdão por não saber como negar. E não saber como ser a negação.

terça-feira, 30 de março de 2010

Flores.


Aquele lugar não era um lugar qualquer: era mais um lugar. Não era igual aos outros nem tão pouco diferente. Homogeneamente desfigurado, se fazia nos rostos sofridos e desolados como o último recanto do fim do mundo.
Era o último lugar da Terra, esquecido, desolado, inconformado e ao mesmo tempo passivo já que a indignação havia se transformado em tédio no tempo que nem os céus respondiam as preces daquele povo.
Há tempos haviam desistido de pedir compaixão, há tempos haviam desistido de viver. No tempo e no espaço haviam se perdido os sonhos, os desejos e a vida. Eram sobreviventes como de um naufrágio, sobreviventes do mundo que assim se mostra.
Não tinham cultura, estudo, inteligência e nem belas roupas, belos rostos e nem fingiam belamente ser o que não eram. Eram tristes, passivos, tediosos e não fingiam mais do que isso.
Tinham lhe tirado tudo. Não tinham mais nada e tão pouco reclamavam porque até sua voz haviam tirado. E sobreviviam, se agarravam a sobrevida de não ser o que se deseja, das necessidades básicas e da aceitação de um deus morto.
A prova maior de que tudo ali era morto eram os urubus no cais do porto. Haviam muitos urubus comendo os restos da feira do dia anterior e comiam com gosto. Só eles comiam com gosto naquele lugar. Haviam urubus também no alto das capelas, soltando suas fétidas e moles feses em cima da cruz. Só eles não acreditavam no morto.
Não havia chuva e quando chovia, uma vez por ano era pela misericórdia do Cristo pregado na cruz que muitos ainda sobreviviam e recomeçavam a sobrevida. Recomeçavam porque as coisas iam pelos rios de águas, as poucas coisas que ainda tinham direito, iam junto com a chuva, por isso não reclamavam de não chover pois temiam a chuva.
Tinham aprendido a ter medo, mas um medo ameno, apático, medo de quem não tem opção. Tinham medo da própria sombra e não saiam de tarde, com medo do Sol se esconder e a escuridão reinar. Não viam as estrelas pois temiam o céu.
Os que nasciam ali sabiam que era o destino quem os havia colocado ali, não saiam jamais, nem de barco, nem de carro e nem haviam. Ficavam ali naquela vida interiorana e de fim de mundo sem saber o que acontece e não reclamavam.
Sabiam do mundo pelos rádios, mas nada fazia sentido porque nada do que se falava chegava ali. Alguém um dia reclamou no meio da rua:
- Mas que porra de lugar onde até os céus se esquecem de olhar!
E foi só, o único desabafo desde que aquele lugar era aquele lugar. Foi um, que logo depois sumiu nas águas por não aguentar aquele lugar e que logo depois voltou por achar incompreendivel o mundo de fora.
Permaneceram assim até a desolação da solidão assombrar de uma forma que não sabiam quem morava ao lado e temiam sair nas ruas com medo da sombra dos vizinhos. Trancaram suas portas, janelas e viviam em plena escuridão com medo do Sol, dessa vez, com medo dos céus e certos de que aquilo que viviam era castigo divino por preces insistentes. Talvez Deus não gostasse de ser importunado.
No ano de que falo, houve uma grande chuva naquele lugar, e ninguém saiu de suas casas por medo. Algumas casas foram levadas, mas outras permaneceram para continuar o legado do medo. E quando a chuva passou, abriram suas janelas e portas para ver o que restava do resto.
O que viram, impactou de tal forma que nunca mais puderam ser iguais: haviam flores brotadas no chão. Flores que trouxeram vida e tiraram o amargo do medo. Flores que trouxeram coragem e capacidade de não aceitar a apaticidade rejente. Flores que revigoraram, reedificaram e fizeram nascer flores, outras flores, onde antes havia o medo. Flores de transformação.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Chuva.

Ela cai lentamente como se não fosse parar nunca de cair. Tem hora que explode em raio e luz, barulho de trovoadas e assusta os menos avisados.
Mas sua maior virtude é lavar. Lavar a tudo que vê pela frente, lavar a todas as coisas sem se importar com o quê se lava; assim que passa, leva e lava.
É por isso que quando cai, peço que lave as coisas mais escondidas dentro da alma, peço para que não as deixem secar nunca, não se deixem esquecer nunca e que permaneçam sempre floridas, vivas, como só a chuva pode deixar.
Ao mesmo tempo, peço pra não apagar o fogo que incendeia de forma encantadora as grandes paixões que impulsionam o mundo, aquelas sempre contrariadas que se fazem sempre um com o fogo e explodem. Peço a chuva pra não varrer a fogueira, não enterrar a fogueira e deixar arder o fogo, mesmo que se caia em água com toda intensidade.
E peço, como último pedido mais desejado que me ensine também a chover. Quero chover sem deixar de queimar e ser chuva sem deixar de ser fogo. Chover como nunca, como só quem é chuva pode saber. E queimar tão intenso que só quem se faz explosão pode sentir.

sábado, 27 de março de 2010

Roda Gigante.


Estavam numa roda gigante, ela e ele sem perceber. Não percebiam que o tempo era aliado das contrariedades da vida e que ao se contrariar, estavam vivendo como nunca.
Não era tarde, mas mesmo assim engoliam-se por absorver como último cada instante que passavam na roda gigante invisível. Ora voavam, ora caiam mas sempre, sempre engoliam-se.
Não faziam idéia da dimensão desses sentimentos que mesmo com o tempo são indescritíveis, permanecendo sempre intactos de definição. Era uma construção constante, um passo de cada vez mesmo que atropelado e contrariado. Era amor.
Mas não desconfiavam das pedras, talvez eram imaturos demais para enfrentá-las e para enfrentá-lo, esse sentimento, que nutre e destrói.
Havia o medo da entrega sem barreiras porque nem ele e nem ela eram todo amor. Temiam e não queriam ser. Ser todo amor era doentil, era demais, era quase um negar a si, um não ser. Enquanto o que mais queriam eram ser. Ser amplamente que só em liberdade irrestrita podemos alcançar. Liberdade, queriam, desejavam, sonhavam com a liberdade.
Na roda gigante, esquivavam-se por medo de se aprisionar. Era o medo intenso de não ser nada do que desejavam que faziam com que fugissem. Eram fugas individuais e conjuntas ali. Eram a fuga de todos nós, e de cada um.
Giro a giro da imensa roda era cada vez mais inevitável se consumir. Era o intenso que fazia do amor, fogo e da liberdade, vôo.
Aprendiam com o tempo, que amor e liberdade são contraditórios e por assim serem, são intensos quando se tornam um e sendo um permancem intactos de descrição.
Foi então que consumiram-se, engoliram-se como nunca por entender que liberdade e amor eram uma coisa só e não houve mais medo.
Não eram todo amor, é verdade. Mas construiam a cada giro esse sentimento que encandeia e se faz candura.
Ele e ela eram ali mais que pássaros, eram vôo.

Vingança.

E continuaria em sua vingança diária sendo mais feliz do que nunca antes fora. Aliás, talvez felicidade não caberia aqui, mas ela irradiava uma vida que antes não tinha, irradiava um quê de libertação que antes não conseguia suportar. Sua vingança consistia em ser cada dia mais ela mesma e esquecer de uma vez por todas o fardo de não ser por amor ou que diabos isso chamasse.

- Ainda bem que não sou toda coração. - Disse a si mesma antes de seguir. E seguiu.

quinta-feira, 25 de março de 2010

De outro mundo.

- Ele parece ser de outro mundo.

Foi o que ela disse e essas palavras me fizeram ter certeza que ele não era. Não poderia ser, pois suas singularidades o faziam intacto diante das coisas. Ele continuava lá mesmo quando tudo se reinvertia e mudava de direção. Continuava lá mesmo quando todos os passos marchavam na direção contrária. E não se encaixava, nunca se encaixou.
Desistiu cedo de tentar, é verdade. Não queria se adaptar ao que considerava caduco e asqueroso, tão pouco quis se tornar igual ao que tanto criticava. Queria um mundo diferente e fazia dele próprio, todo dia, a mudança. Mudança que trazia sentido a vida, sem ela não poderia se quer viver, dizia.
Andava de um jeito diferente, absorto muitas vezes, era dono de belas palavras ora duras, ora doces, mas sempre belas. Eram intensas e cantavam o novo, o tão desejado novo e não as coisas velhas e boas de sempre. Era contraditório, enérgico e sua energia me consumia todos os dias.
Era nele que pensava quando por muitas vezes me sentia fraca. Era nele que pensava quando desacreditava na mudança, no novo, na vida por inteiro. Mas ao mesmo tempo, era essa energia e desejos tão intenso que me sufocavam, sugavam e me consumiam ao mesmo tempo que me nutriam e mantiam em pé. Grande contradição, eu não fui capaz de suportar.
Enquanto aguentei, doei o que pude nessa grande aventura de sermos ou de tentarmos ser ou de pelo menos desejarmos ser a mudança que tanto queríamos. Doei meu silêncio, que dizia tanto pra mim, mas que não podia ser ouvido. Implodia, todo tempo eu implodia.
Éramos dois, ao mesmo tempo que não eramos nada. Nos faziamos, construíamos todos os dias nossas potencialidades, mas não! não pude aguentar, quando percebi que ainda, ainda era fragmentos que estavam longe de se tornarem inteiros.
Ao primeiro choque, caí. Ele não pode me acompanhar, afinal, ele não era daqui. Era de outro lugar e esse aqui me prendia tanto e com tanta força que era necessário uma luta constante contra mim mesma pra poder me libertar. Minha liberdade tão desejada e tão idealizada não era possível ainda. Eu tinha que me libertar sozinha. Era eu contra mim mesma. Sim! A luta era contra mim mesma que eu deveria travar.
Ele tentou me carregar no colo, muitas vezes. Talvez soubesse do meu desejo de mudança, talvez me amasse. Talvez não, ele me amava e eu o amava tanto que era impossível dizer ou mostrar ou se quer dimensionar. Eu sentia, com todas as minhas forças que o amava. Mas não precisava de colo, precisava aprender a caminhar e aquela força tão grande e desejo tão intenso eram ainda pesados pra mim. eu só sabia implodir, enquanto ele, ele explodia como estrela no final da vida. Explodia como explodem os fogos em um fim de ciclo terrestre. Eu, eu só sabia implodir.
Em minha busca por minha liberdade tão intensamente desejada, acabei me sufocando em minhas próprias correntes. Corri mais do que minhas pernas aguentavam e caí. Dessa vez ele não poderia me ajudar. Ele não era daqui e era justamente aqui que eu estava presa.
Não havia como aguentar, não se eu quisesse minha liberdade e a mudança desejada. Não se eu quisesse realmente o novo, sem resquícios de um passado banal.
Haveria agora de caminhar sozinha, lutar sozinha e me arrebentar sozinha. Haveria então de me tornar tão enérgica quanto ele, tão profundamente certa no meu querer quanto ele e aí sim, me livrar de tudo aqui. Meus erros haveriam de ser só meus a partir de agora e então, nos meus passos em falso eu iria aprender a caminhar sozinha, sem cair. E foi só com essa certeza que pude me libertar da figura daquele menino. Libertação necessária, desejada e mais que essencial na minha aprendizagem. Eu haveria de dizer um dia que também não sou daqui. E a passos lentos eu soube que deveria seguir. Me sentia renovada quando finalmente conseguia dar um passo, ser um passo e conhecer outros lugares e outros passos. Era um consolo talvez saber que sozinha, eu conseguiria. Mas ele me fazia falta, é bem verdade. Seu colo me fazia falta, mas eu sabia e mais do que isso, eu sentia que deveria caminhar só. E essa minha solidão me fazia renovar, transformar a mim mesma diante das coisas e sentia que a liberdade tão desejada estava diante de mim. Eu precisava encontrá-la só. Meu erro grande foi me julgar livre ao me encontrar com ele. Não eu não era, o que eu julgava ser liberdade era apenas um desejo profundo e arraigado de libertação. Desse desejo fiz minha verdade, mas não, nunca fui livre. Era somente só que poderia ser, era somente só que poderia percorrer milhões de caminhos e cair milhões de vezes ao encontro de minha liberdade tardia.
Justamente por não ser livre e me julgar assim que me contradisse muitas vezes junto a ele. Fui um pouco dele e ele um pouco de mim, mas sem saber que não era livre. Eu precisava descobri que não, que jamais havia sido livre pra poder me libertar. Me libertar de mim mesma antes de tudo. Antes de tudo era a mim mesma e de mim mesma que queria me libertar.

- Ele parece ser de outro mundo.

Isso não saiu da minha cabeça nos momentos que se seguiram daquela conversa informal. Era porque talvez era a mesma impressão que eu tinha e isso me pareceu estranhamente correto: ele não era desse mundo. E eu me agarrei de mais porque justamente esse não ser daqui me livrou do inferno que era meu mundo. Meu pequeno grande mundo que tanto me oprimia e que precisava ser destruído, exterminado. Foi esse não ser daqui que me fez desejar abominar tudo aqui e nesse meu ímpeto incontrolável de sair daqui, sair desse mundo eu não percebi que não tinha alcançado minha liberdade. Ainda havia prisão em mim.
Mas agora sim, agora eu sei que preciso caminhar sozinha. É sozinha que deveria encontrar a minha verdadeira mudança pra depois, quem sabe o encontrar. O encontrar longe das amarras que me prendem, longe dos meus medos e pesadelos e de minha pequenês de ser daqui. Encontrá-lo sim, logo ele, que parece ser de outro mundo. Logo ele que me ensinou a voar.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Pateticamente iguais.

São tão iguais os que propõem uma suposta mudança que me enoja, as vezes me enoja. No mínimo, me entristece saber que são iguais. E se perdem em suas particularidades tão genéricas que se tornam mercadologicamente feitos de esteriótipos e só.
Mostram um profundo que esconde um vazio, um patético vazio disfarçado em palavras bonitas e iguais. São iguais.
Brincam com as palavras e juram saber brincar, mas através da brincadeira não mudam as palavras, elas continuam cantando o velho mundo.
Não há o desejo de destruição das coisas ruins e sim um culto, culto ao que julgam profundo e em sua miopia diária não enxergam que na verdade, não mudam nada. Suas palavras, são mudas.

No silêncio, cantam o desencanto do mundo e acreditam piamente que mudam, ao menos mudam a si próprios assim, mas não. Continuam velhos, caducos, continuam a celebrar o asco e cultivam como planta sua rotina auto-destruitiva. E só.
Seja o que quiser ser, viva o que quiser viver, plante sempre o que desejar colher; Liberdade só depende de você.