Acordou às quatro da madrugada com o barulho das balas varando a cozinha. Temeu, não o medo que se sente quando nos vemos perto do fim ou perto de algo que tende ao fim mas sim o medo de se ser menos do que uma bala.
Uma bala de chumbo, bala comum, dessas que varam a cidade todos os dias e por isso mesmo temeu mais do que nunca ser menos do que aquilo. Como poderia ser menor do que uma bala? Como poderia perde-se em uma bala de menos de um centímetro de diâmetro.
Empalideuceu-se na cogitação do talvez acabar-se ali, menos do que uma bala, uma simples bala. Não queria acreditar que aquela bala era maior que o mundo, seu mundo.
Seu coração batia forte, não por medo de acabar ali. Não temia o fim em si, não temia deixar de existir pois mal sabia o sigificado de sua existência mas temia sim, ser menor do que uma bala, deixar que a bala levasse sua existência embora, varresse teu eu e terminasse dentro daquela bala. O que era a vida afinal? Se em menos de três segundos poderia terminar em um projétil, algo inanimado, sem vida. A vida poderia terminar na não-vida, o que poderia ser viver então?
Poderia gritar, correr, fechar os olhos mas não. Ficou ali, parada. Não podia se mexer pois sentia-se pequena demais para mexer.
Viu tudo que vivera, tudo que fora e sentiu-se no vácuo. Àquele silêncio que tampa os ouvidos e deixa surdo se fez e pôde sentir sua respiração como nunca. Sorriu então.
Havia entendido que ser menor que uma bala não significa que a vida seja vã, pequena ou sem nexo, mas o contrário. É a tenacidade da linha que separa o vivo do não-vivo que faz da vida uma dádiva. Ou mais que isso, mais do que isso porque a vida não é divina, nem sublime. É inconstância, furacão.
Atingiu-a então.
Dentre o mar de balas que varavam a cozinha, uma delas atingiu em cheio o seu coração. Lentamente diminui a velocidade das batidas e no sangue, via-se a vida escorrendo. Respirando com dificuldade, estendeu as mãos, o máximo que pode e sorriu.
Uma última lágrima, anunciando o fim da vida ou o começo dela. Sentiu ali, naquele instante último o quão intenso era viver. O quão grandioso é estar vivo.
Seja o que quiser ser, viva o que quiser viver, plante sempre o que desejar colher; Liberdade só depende de você.