sábado, 17 de abril de 2010

d água.

Bateram à sua porta tarde da noite já. Atendeu entre a brecha da porta, desconfiado como sempre. Quem poderia ser essa hora afinal? quem poderia gostar tanto de incomodar? Viu que era uma mulher, de casaco azul e um semblante tão simples e sem expressão que era quase invisível. Não a conhecia, mas a odiou desde a primeira vez.
Não perguntou o que ela queria, apenas balançou a cabeça como quem pergunta: O que foi? E manteve o olhar carrancudo no rosto.
- Moço, me arranja um copo d água, por favor.
Ele não pode acreditar naquilo. Meu Deus do céu, pensou, isso lá eram horas de bater na porta de alguém pra pedir água?!
- E pra que diabos você quer água?! Perguntou à mulher com indignação.
- Tenho sede, ela respondeu.
Tinha sede sim aquela mulher, mas isso pouco importava pra ele ali, naquele momento. Aliás, pouco importaria a sede de alguém em qualquer tempo. Era tão perdido em si mesmo que tanto fazia sentir sede ou fome, tanto fazia viver ou morrer. Odiava o mundo e tudo que o habitava. Odiava a vida como se fosse algo separável e sujo. Algo exterior e contaminoso. Algo que merecia seu desprezo.
- Entre.
- Desculpa moço, não queria tomar o seu tempo. Só quero um copo d água.
- E porque não tomar meu tempo? Tome, tome logo, leve todos esses relógios daqui vai, dou a água mas também te dou meu tempo, esses relógios são teus agora. Não aguento mais tanto tic-tac na minha cabeça e não quero esse tempo miserável. Tome! Leve-os daqui, esses relógios. Leve-os para longe!
A mulher pegou todos os relógios, recolheu-os em seus braços e disse:
- Está bem, eu os carrego comigo. Mas quero um copo d água.
É claro que apesar de tudo ele iria dar um copo d água pra ela mas era inevitável fazer uso daquela oportunidade única de escarrar o mundo pra fora.
- Está bem, eu vou lhe dar sua água mas tente me ouvir um instante. Tente entender que não é porque eu lhe dou um copo d água que aceito o mundo. eu não sei quem você é, mas você bateu em minha porta e me fez lembrar o quanto eu odeio o mundo. E eu te convidei para entrar como quem aceita o mundo mas isso não é verdade. Isso é uma tremenda mentira. Eu não aceito o mundo. Eu não aceito você. Minha ira é tão grande que se eu pudesse eu amassava o mundo como se amassa folha de papel e jogava numa lata de lixo, tampava e esquecia. Coisa grotesca ter que viver! E veja bem, eu sou obrigado a viver todos os dias e toda vez que respiro sinto raiva de meus pulmões funcionarem, sinto raiva desses relógios que te dei também. Perda de tempo querer ganhar tempo. A gente perde sempre nessa imundisse de mundo! queria explodir o mundo, chutar o mundo, queria cuspir no mundo!
E realmente cuspiu, na mulher. No entanto seu cuspe não teve forças pra chegar até ela e escorreu pelo seu queixo, descendo até o peito.
- É sempre assim, a gente cospe no mundo e ele chove na gente!
Mas que seja, tanto faz e não é porque te deixei entrar que aceito o mundo, tá entendendo?
A mulher disse delicadamente:
- Estou com sede. Preciso de um copo d água, por favor.
Ele então se recompôs e foi buscar o copo d água jurando a si mesmo que não, jamais, não aceitava aquele mundo imbecil.
- Está aqui sua água.
A mulher pegou o copo com vigor e bebeu a água de olhos fechados como se sentisse cada gota lavar sua alma.
Devolveu o copo. Olhou bem pra aquele homem e disse:
- É como a vida que chega sutil, em gotas d água e de repente chove em temporal. Mas não deixa de ser vida, lúcida ou em delírios, se bastando por si. Só a vida, capaz de mudar o mundo e fazer do desejo intenso de mudança, explosão.
Com os olhos cheios d água, ele caiu no chão.
Ajoelhado, como numa prece, disse:
- Eu amo você, vida.
Seja o que quiser ser, viva o que quiser viver, plante sempre o que desejar colher; Liberdade só depende de você.