segunda-feira, 5 de abril de 2010

Medrosamente.

Ao toque de recolher todos foram para casa. Mas não havia toque de recolher, não se ouvia barulho nas ruas desde o pôr do Sol. Só eles ouviram e se esconderam. Tracancaram suas casas, esconderam sonhos e assim, esconderam-se da vida. Não importava mais, o medo havia dominado aquele lugar.
Ao sinal de qualquer tremor, se apavoravam. Até descobrirem que na verdade não, a Terra não estava tremendo e o mundo ainda não ia desmoronar sobre suas cabeças, na verdade era só alguém que tinha pisado um pouco mais forte e seus passos foram sentidos.
Pediam perdão por tudo, e permaneciam calados e com cara de luto eterno quando perguntavam sobre o que pensavam sobre o mundo. Vire e mexe alguém perguntava por incrível que pareça, vire e mexe eram obrigados a pensar sobre isso e sentiam pavor, pavor pela mudança, pelo novo, pelo mundo. Sentiam pavor pela vida inteiramente vivida.
Pediam perdão ao Estado quando infrigiam regras lutando por verdades acreditadas, por novos mundos e novos cotidianos. Pediam perdão por faltar o pão, afinal os justos não passam fome e pediam perdão à Deus pelos desejos da carne, amém. Quando ouviam notícia de algum menino de 12 anos que tivesse roubado algo por aí ou matado alguém diziam ser servo do diabo, usado pelo 'cão', mas não se falava em quem seria o 'cão' da história. O verdadeiro diabo e seus verdadeiros desejos eram sempre camuflados e todos aqueles que se escondiam ao toque de recolher eram submetidos ao dom da honestidade. Afinal, pediam perdão, eles sempre pediam perdão por serem roubados.
E olhavam os ponteiros do relógio como estátuas e então corriam, corriam porque o tempo corria também e eles precisavam se redimir, precisavam pedir perdão, pagar penitências, precisavam fugir da vida. Não percebiam que aquele relógio marcava um tempo não deles, um não-tempo, o tempo das coisas. Tempo que fugia como o tal diabo foge da cruz, tempo ilusório. Tempo que não permitia haver tempo de se construir a história. E de transformar a história.
O medo, ininterrupto em suas ações continuava dominando, mente e corações daqueles habitantes da desolação. Cegava, mais do que qualquer outra coisa, esse medo e não permitia que fosse vista a servidão voluntária dos que sempre pediam perdão.
E quando ouviam o toque de recolher que nunca havia tocado, se escondiam, trancafiavam-se e não mostravam seus rostos, suas idéias, sua vida. Porque era o tempo das coisas que ditava a hora de se recolher. Era o tempo das coisas e não da vida que fazia do medo senhor absoluto das multidões.

Até quando?

...


Tic Tac.
Seja o que quiser ser, viva o que quiser viver, plante sempre o que desejar colher; Liberdade só depende de você.