domingo, 11 de abril de 2010

palavriado.



Algumas palavras não bastariam, mas era apenas o que tinha naquele momento. Imensidão de pensamentos mas poucas palavras. Nunca saiam como deveria ou planejava. Teimavam em contradizer o que se sente e descrever o que se forma na cabeça, mas não conseguiam.
Odiava, com toda a sua força as palavras. Eram a voz, a voz do mundo e da vida, mas não expressavam por completo e isso a deixara agonizando, sozinha, por um longo tempo, várias vezes. Triste complexidade que insistia em pairar.
Eram letras, números, pontos e etc que a deixavam perdida, pois não podiam dizer mais do que se espera ouvir de alguém. As palavras pouco surpreendiam, eram sempre iguais.
No entanto, era isso que tinha naquele momento: algumas palavras. Palavras essas que tentavam expressar o que não lhe deixava dormir e o peso do mundo que se faz quando se pensa sobre o mundo e sobre si. Sobre mudar a si, mudar o mundo, mudar, mudar as coisas e mudar mais um pouco, mudar profundamente, mudar impacientemente. Impacientemente, perdeu a paciência. Algumas palavras não eram o suficiente, nunca seriam e quanto mais ela dizia, mais se repetia e mais se irritava! E se talvez se calasse? Se talvez deixasse de dizer, de repetir, de reverberar as coisas? Se assim fizesse cairia no luto de poucos, que esquecem a linguagem dos homens. Mas hoje, a linguagem dos homens é a linguagem das coisas e isso, isso não é certo! Mas como mudar se as próprias palavras são iguais, expressam as mesmas coisas, o mesmo tempo, as mesmas causas.
Tanto faz.
Eram apenas poucas palavras que tinha naquele momento e colocá-las pra fora era tão difícil quanto mudar o mundo. Estava emocionada, talvez desde que falara pela primeira vez, mas ali, suas pernas tremiam. Não estava frio, mas haviam borboletas em seu estômogo e algumas lágrimas insistiam em querer descer enquanto se preparava - Sim! exigiam um grande preparo àquelas palavras... Era estranho se sentir assim porque as palavras nunca foram suas amigas íntimas, elas sempre embolavam o que era sentido e agora, naquele momento ímpar, eram só algumas palavras que ela tinha e no entanto tinha que escolher com todo cuidado, com toda delicadeza, com todo zelo possível.
Aquelas poucas palavras, as únicas que tinha naquele momento, iriam responder a pergunta que acabara de ouvir do atendente daquela lanchonete no centro da cidade:
- Você quer alguma coisa?
Bem, querer alguma coisa. Era claro que ela queria, ela queria tantas coisas, ela queria dizer tantas coisas e queria contar tantos sonhos naquele momento! Queria poder dizer que desejava ter a vida nas mãos e sentí-la como ninguém a não ser nós mesmos podemos sentir e que queria tudo diferente, um lugar diferente, onde seres humanos existissem de verdade. Verdadeiramentes humanos, sabe como é, nada de coisas no comando, nada de tempo das coisas, nada de sofrimentos e sentimentos banais. Eu queria também, ela diria, eu queria também engolir o mundo inteiro com a boca, mastigá-lo e cuspi-lo totalmente refeito, novo, diferente. Algo que nascesse de dentro de mim antes de tudo sabe? Algo que ultrapassasse qualquer regra de liberdade que torna a liberdade tão frívola e inalcansável. Queria também ter asas e voar tão alto como se eu não podesse voltar ao chão e ao mesmo tempo eu queria não sair do chão enquanto eu voasse. Queria as coisas por inteiro, por fim. Nada tão separado, fragmentado e morto como é. Ela realmente queria dizer tudo isso e tudo isso, sabe moço, tudo isso não chegaria perto do que sentia naquele momento enquanto as pernas tremiam. Sim, minhas pernas tremem enquanto você me pergunta o que eu quero moço, tremem porque eu quero tanta coisa que não consigo expressar! Tremem porque quando penso no que quero lembro que tô viva e que sou vida, mais, muito mais do que apenas existir, eu tô tão viva! E meu coração pulsa de um jeito que me lembra que não tem volta o caminho da vida. Tanta coisa, tanta coisa, que a lágrima rolou sem que percebesse.
- Você quer alguma coisa? Disse novamente o moço atendente e isso a fez despertar.
Lembrou que tinha apenas algumas palavras e que deveria escolher com muito zelo, muito cuidado, com muito sentimento. Eram as únicas palavras que podia usar naquele momento e criava coragem pra dizer o que se passava na cabeça, criava coragem para proferir como discurso épico triunfal aquelas palavras, aquelas poucas palavras que tinha ali, naquele momento que passava como furacão e brisa.
- Não, obrigada.
Foi isso que disse por fim. E saiu da lanchonete emocionadamente feliz. Era isso que tinha a dizer porque sabia que por mais que disesse, nada iria sair, as palavras nunca iriam preencher o que sentia.
Saiu pulando pelas calçadas enquanto sentia a respiração. Com a mão no peito então, sentindo as batidas daquele órgão esquisto e pulsante, repetiu em pensamento: eu tô viva.
Seja o que quiser ser, viva o que quiser viver, plante sempre o que desejar colher; Liberdade só depende de você.