- Ele parece ser de outro mundo.
Foi o que ela disse e essas palavras me fizeram ter certeza que ele não era. Não poderia ser, pois suas singularidades o faziam intacto diante das coisas. Ele continuava lá mesmo quando tudo se reinvertia e mudava de direção. Continuava lá mesmo quando todos os passos marchavam na direção contrária. E não se encaixava, nunca se encaixou.
Desistiu cedo de tentar, é verdade. Não queria se adaptar ao que considerava caduco e asqueroso, tão pouco quis se tornar igual ao que tanto criticava. Queria um mundo diferente e fazia dele próprio, todo dia, a mudança. Mudança que trazia sentido a vida, sem ela não poderia se quer viver, dizia.
Andava de um jeito diferente, absorto muitas vezes, era dono de belas palavras ora duras, ora doces, mas sempre belas. Eram intensas e cantavam o novo, o tão desejado novo e não as coisas velhas e boas de sempre. Era contraditório, enérgico e sua energia me consumia todos os dias.
Era nele que pensava quando por muitas vezes me sentia fraca. Era nele que pensava quando desacreditava na mudança, no novo, na vida por inteiro. Mas ao mesmo tempo, era essa energia e desejos tão intenso que me sufocavam, sugavam e me consumiam ao mesmo tempo que me nutriam e mantiam em pé. Grande contradição, eu não fui capaz de suportar.
Enquanto aguentei, doei o que pude nessa grande aventura de sermos ou de tentarmos ser ou de pelo menos desejarmos ser a mudança que tanto queríamos. Doei meu silêncio, que dizia tanto pra mim, mas que não podia ser ouvido. Implodia, todo tempo eu implodia.
Éramos dois, ao mesmo tempo que não eramos nada. Nos faziamos, construíamos todos os dias nossas potencialidades, mas não! não pude aguentar, quando percebi que ainda, ainda era fragmentos que estavam longe de se tornarem inteiros.
Ao primeiro choque, caí. Ele não pode me acompanhar, afinal, ele não era daqui. Era de outro lugar e esse aqui me prendia tanto e com tanta força que era necessário uma luta constante contra mim mesma pra poder me libertar. Minha liberdade tão desejada e tão idealizada não era possível ainda. Eu tinha que me libertar sozinha. Era eu contra mim mesma. Sim! A luta era contra mim mesma que eu deveria travar.
Ele tentou me carregar no colo, muitas vezes. Talvez soubesse do meu desejo de mudança, talvez me amasse. Talvez não, ele me amava e eu o amava tanto que era impossível dizer ou mostrar ou se quer dimensionar. Eu sentia, com todas as minhas forças que o amava. Mas não precisava de colo, precisava aprender a caminhar e aquela força tão grande e desejo tão intenso eram ainda pesados pra mim. eu só sabia implodir, enquanto ele, ele explodia como estrela no final da vida. Explodia como explodem os fogos em um fim de ciclo terrestre. Eu, eu só sabia implodir.
Em minha busca por minha liberdade tão intensamente desejada, acabei me sufocando em minhas próprias correntes. Corri mais do que minhas pernas aguentavam e caí. Dessa vez ele não poderia me ajudar. Ele não era daqui e era justamente aqui que eu estava presa.
Não havia como aguentar, não se eu quisesse minha liberdade e a mudança desejada. Não se eu quisesse realmente o novo, sem resquícios de um passado banal.
Haveria agora de caminhar sozinha, lutar sozinha e me arrebentar sozinha. Haveria então de me tornar tão enérgica quanto ele, tão profundamente certa no meu querer quanto ele e aí sim, me livrar de tudo aqui. Meus erros haveriam de ser só meus a partir de agora e então, nos meus passos em falso eu iria aprender a caminhar sozinha, sem cair. E foi só com essa certeza que pude me libertar da figura daquele menino. Libertação necessária, desejada e mais que essencial na minha aprendizagem. Eu haveria de dizer um dia que também não sou daqui. E a passos lentos eu soube que deveria seguir. Me sentia renovada quando finalmente conseguia dar um passo, ser um passo e conhecer outros lugares e outros passos. Era um consolo talvez saber que sozinha, eu conseguiria. Mas ele me fazia falta, é bem verdade. Seu colo me fazia falta, mas eu sabia e mais do que isso, eu sentia que deveria caminhar só. E essa minha solidão me fazia renovar, transformar a mim mesma diante das coisas e sentia que a liberdade tão desejada estava diante de mim. Eu precisava encontrá-la só. Meu erro grande foi me julgar livre ao me encontrar com ele. Não eu não era, o que eu julgava ser liberdade era apenas um desejo profundo e arraigado de libertação. Desse desejo fiz minha verdade, mas não, nunca fui livre. Era somente só que poderia ser, era somente só que poderia percorrer milhões de caminhos e cair milhões de vezes ao encontro de minha liberdade tardia.
Justamente por não ser livre e me julgar assim que me contradisse muitas vezes junto a ele. Fui um pouco dele e ele um pouco de mim, mas sem saber que não era livre. Eu precisava descobri que não, que jamais havia sido livre pra poder me libertar. Me libertar de mim mesma antes de tudo. Antes de tudo era a mim mesma e de mim mesma que queria me libertar.
- Ele parece ser de outro mundo.
Isso não saiu da minha cabeça nos momentos que se seguiram daquela conversa informal. Era porque talvez era a mesma impressão que eu tinha e isso me pareceu estranhamente correto: ele não era desse mundo. E eu me agarrei de mais porque justamente esse não ser daqui me livrou do inferno que era meu mundo. Meu pequeno grande mundo que tanto me oprimia e que precisava ser destruído, exterminado. Foi esse não ser daqui que me fez desejar abominar tudo aqui e nesse meu ímpeto incontrolável de sair daqui, sair desse mundo eu não percebi que não tinha alcançado minha liberdade. Ainda havia prisão em mim.
Mas agora sim, agora eu sei que preciso caminhar sozinha. É sozinha que deveria encontrar a minha verdadeira mudança pra depois, quem sabe o encontrar. O encontrar longe das amarras que me prendem, longe dos meus medos e pesadelos e de minha pequenês de ser daqui. Encontrá-lo sim, logo ele, que parece ser de outro mundo. Logo ele que me ensinou a voar.