quarta-feira, 31 de março de 2010

Perdão


Perdão por não saber muito sobre o mundo. Na realidade ele é grande demais e não consigo abocanhá-lo de uma vez só. Quando penso que sei certas coisas, deixo de saber no instante seguinte justamente porque nada me serve mais. Mesmo sabendo que mudá-lo é o único caminho eu não sei por onde começar. A Terra é redonda, teria que reconstruí-la novamente, refazê-la e com tal zelo que exige tanto e quanto mais de mim que não sou capaz, muitas vezes, de assim ser.
Perdão por não saber nada sobre mudança. Eu sei que ela tem que acontecer e começar por mim mas sempre ando a procura de algo externo que me guie na mudança. Não há de chegar, tenho que partir da negação do mundo, da negação do que se é posto pra entender um pouco mais sobre mudança e mesmo assim, eu sempre me perco.
Perdão por ser fraca, covarde. Eu deveria lutar mais, doar mais e mesmo assim me travo, estagno e fico passivamente me angustiando com o mundo que exige mudança. Logo eu, que como tantos outros me angustio. A maioria das vezes, me vejo perdida sem saber por onde começar.
Perdão por todas essas baboseiras enfames, essas angustias humanas que de tão humanas precisam deixar de existir. Perdão por não saber como negar. E não saber como ser a negação.

terça-feira, 30 de março de 2010

Flores.


Aquele lugar não era um lugar qualquer: era mais um lugar. Não era igual aos outros nem tão pouco diferente. Homogeneamente desfigurado, se fazia nos rostos sofridos e desolados como o último recanto do fim do mundo.
Era o último lugar da Terra, esquecido, desolado, inconformado e ao mesmo tempo passivo já que a indignação havia se transformado em tédio no tempo que nem os céus respondiam as preces daquele povo.
Há tempos haviam desistido de pedir compaixão, há tempos haviam desistido de viver. No tempo e no espaço haviam se perdido os sonhos, os desejos e a vida. Eram sobreviventes como de um naufrágio, sobreviventes do mundo que assim se mostra.
Não tinham cultura, estudo, inteligência e nem belas roupas, belos rostos e nem fingiam belamente ser o que não eram. Eram tristes, passivos, tediosos e não fingiam mais do que isso.
Tinham lhe tirado tudo. Não tinham mais nada e tão pouco reclamavam porque até sua voz haviam tirado. E sobreviviam, se agarravam a sobrevida de não ser o que se deseja, das necessidades básicas e da aceitação de um deus morto.
A prova maior de que tudo ali era morto eram os urubus no cais do porto. Haviam muitos urubus comendo os restos da feira do dia anterior e comiam com gosto. Só eles comiam com gosto naquele lugar. Haviam urubus também no alto das capelas, soltando suas fétidas e moles feses em cima da cruz. Só eles não acreditavam no morto.
Não havia chuva e quando chovia, uma vez por ano era pela misericórdia do Cristo pregado na cruz que muitos ainda sobreviviam e recomeçavam a sobrevida. Recomeçavam porque as coisas iam pelos rios de águas, as poucas coisas que ainda tinham direito, iam junto com a chuva, por isso não reclamavam de não chover pois temiam a chuva.
Tinham aprendido a ter medo, mas um medo ameno, apático, medo de quem não tem opção. Tinham medo da própria sombra e não saiam de tarde, com medo do Sol se esconder e a escuridão reinar. Não viam as estrelas pois temiam o céu.
Os que nasciam ali sabiam que era o destino quem os havia colocado ali, não saiam jamais, nem de barco, nem de carro e nem haviam. Ficavam ali naquela vida interiorana e de fim de mundo sem saber o que acontece e não reclamavam.
Sabiam do mundo pelos rádios, mas nada fazia sentido porque nada do que se falava chegava ali. Alguém um dia reclamou no meio da rua:
- Mas que porra de lugar onde até os céus se esquecem de olhar!
E foi só, o único desabafo desde que aquele lugar era aquele lugar. Foi um, que logo depois sumiu nas águas por não aguentar aquele lugar e que logo depois voltou por achar incompreendivel o mundo de fora.
Permaneceram assim até a desolação da solidão assombrar de uma forma que não sabiam quem morava ao lado e temiam sair nas ruas com medo da sombra dos vizinhos. Trancaram suas portas, janelas e viviam em plena escuridão com medo do Sol, dessa vez, com medo dos céus e certos de que aquilo que viviam era castigo divino por preces insistentes. Talvez Deus não gostasse de ser importunado.
No ano de que falo, houve uma grande chuva naquele lugar, e ninguém saiu de suas casas por medo. Algumas casas foram levadas, mas outras permaneceram para continuar o legado do medo. E quando a chuva passou, abriram suas janelas e portas para ver o que restava do resto.
O que viram, impactou de tal forma que nunca mais puderam ser iguais: haviam flores brotadas no chão. Flores que trouxeram vida e tiraram o amargo do medo. Flores que trouxeram coragem e capacidade de não aceitar a apaticidade rejente. Flores que revigoraram, reedificaram e fizeram nascer flores, outras flores, onde antes havia o medo. Flores de transformação.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Chuva.

Ela cai lentamente como se não fosse parar nunca de cair. Tem hora que explode em raio e luz, barulho de trovoadas e assusta os menos avisados.
Mas sua maior virtude é lavar. Lavar a tudo que vê pela frente, lavar a todas as coisas sem se importar com o quê se lava; assim que passa, leva e lava.
É por isso que quando cai, peço que lave as coisas mais escondidas dentro da alma, peço para que não as deixem secar nunca, não se deixem esquecer nunca e que permaneçam sempre floridas, vivas, como só a chuva pode deixar.
Ao mesmo tempo, peço pra não apagar o fogo que incendeia de forma encantadora as grandes paixões que impulsionam o mundo, aquelas sempre contrariadas que se fazem sempre um com o fogo e explodem. Peço a chuva pra não varrer a fogueira, não enterrar a fogueira e deixar arder o fogo, mesmo que se caia em água com toda intensidade.
E peço, como último pedido mais desejado que me ensine também a chover. Quero chover sem deixar de queimar e ser chuva sem deixar de ser fogo. Chover como nunca, como só quem é chuva pode saber. E queimar tão intenso que só quem se faz explosão pode sentir.

sábado, 27 de março de 2010

Roda Gigante.


Estavam numa roda gigante, ela e ele sem perceber. Não percebiam que o tempo era aliado das contrariedades da vida e que ao se contrariar, estavam vivendo como nunca.
Não era tarde, mas mesmo assim engoliam-se por absorver como último cada instante que passavam na roda gigante invisível. Ora voavam, ora caiam mas sempre, sempre engoliam-se.
Não faziam idéia da dimensão desses sentimentos que mesmo com o tempo são indescritíveis, permanecendo sempre intactos de definição. Era uma construção constante, um passo de cada vez mesmo que atropelado e contrariado. Era amor.
Mas não desconfiavam das pedras, talvez eram imaturos demais para enfrentá-las e para enfrentá-lo, esse sentimento, que nutre e destrói.
Havia o medo da entrega sem barreiras porque nem ele e nem ela eram todo amor. Temiam e não queriam ser. Ser todo amor era doentil, era demais, era quase um negar a si, um não ser. Enquanto o que mais queriam eram ser. Ser amplamente que só em liberdade irrestrita podemos alcançar. Liberdade, queriam, desejavam, sonhavam com a liberdade.
Na roda gigante, esquivavam-se por medo de se aprisionar. Era o medo intenso de não ser nada do que desejavam que faziam com que fugissem. Eram fugas individuais e conjuntas ali. Eram a fuga de todos nós, e de cada um.
Giro a giro da imensa roda era cada vez mais inevitável se consumir. Era o intenso que fazia do amor, fogo e da liberdade, vôo.
Aprendiam com o tempo, que amor e liberdade são contraditórios e por assim serem, são intensos quando se tornam um e sendo um permancem intactos de descrição.
Foi então que consumiram-se, engoliram-se como nunca por entender que liberdade e amor eram uma coisa só e não houve mais medo.
Não eram todo amor, é verdade. Mas construiam a cada giro esse sentimento que encandeia e se faz candura.
Ele e ela eram ali mais que pássaros, eram vôo.

Vingança.

E continuaria em sua vingança diária sendo mais feliz do que nunca antes fora. Aliás, talvez felicidade não caberia aqui, mas ela irradiava uma vida que antes não tinha, irradiava um quê de libertação que antes não conseguia suportar. Sua vingança consistia em ser cada dia mais ela mesma e esquecer de uma vez por todas o fardo de não ser por amor ou que diabos isso chamasse.

- Ainda bem que não sou toda coração. - Disse a si mesma antes de seguir. E seguiu.

quinta-feira, 25 de março de 2010

De outro mundo.

- Ele parece ser de outro mundo.

Foi o que ela disse e essas palavras me fizeram ter certeza que ele não era. Não poderia ser, pois suas singularidades o faziam intacto diante das coisas. Ele continuava lá mesmo quando tudo se reinvertia e mudava de direção. Continuava lá mesmo quando todos os passos marchavam na direção contrária. E não se encaixava, nunca se encaixou.
Desistiu cedo de tentar, é verdade. Não queria se adaptar ao que considerava caduco e asqueroso, tão pouco quis se tornar igual ao que tanto criticava. Queria um mundo diferente e fazia dele próprio, todo dia, a mudança. Mudança que trazia sentido a vida, sem ela não poderia se quer viver, dizia.
Andava de um jeito diferente, absorto muitas vezes, era dono de belas palavras ora duras, ora doces, mas sempre belas. Eram intensas e cantavam o novo, o tão desejado novo e não as coisas velhas e boas de sempre. Era contraditório, enérgico e sua energia me consumia todos os dias.
Era nele que pensava quando por muitas vezes me sentia fraca. Era nele que pensava quando desacreditava na mudança, no novo, na vida por inteiro. Mas ao mesmo tempo, era essa energia e desejos tão intenso que me sufocavam, sugavam e me consumiam ao mesmo tempo que me nutriam e mantiam em pé. Grande contradição, eu não fui capaz de suportar.
Enquanto aguentei, doei o que pude nessa grande aventura de sermos ou de tentarmos ser ou de pelo menos desejarmos ser a mudança que tanto queríamos. Doei meu silêncio, que dizia tanto pra mim, mas que não podia ser ouvido. Implodia, todo tempo eu implodia.
Éramos dois, ao mesmo tempo que não eramos nada. Nos faziamos, construíamos todos os dias nossas potencialidades, mas não! não pude aguentar, quando percebi que ainda, ainda era fragmentos que estavam longe de se tornarem inteiros.
Ao primeiro choque, caí. Ele não pode me acompanhar, afinal, ele não era daqui. Era de outro lugar e esse aqui me prendia tanto e com tanta força que era necessário uma luta constante contra mim mesma pra poder me libertar. Minha liberdade tão desejada e tão idealizada não era possível ainda. Eu tinha que me libertar sozinha. Era eu contra mim mesma. Sim! A luta era contra mim mesma que eu deveria travar.
Ele tentou me carregar no colo, muitas vezes. Talvez soubesse do meu desejo de mudança, talvez me amasse. Talvez não, ele me amava e eu o amava tanto que era impossível dizer ou mostrar ou se quer dimensionar. Eu sentia, com todas as minhas forças que o amava. Mas não precisava de colo, precisava aprender a caminhar e aquela força tão grande e desejo tão intenso eram ainda pesados pra mim. eu só sabia implodir, enquanto ele, ele explodia como estrela no final da vida. Explodia como explodem os fogos em um fim de ciclo terrestre. Eu, eu só sabia implodir.
Em minha busca por minha liberdade tão intensamente desejada, acabei me sufocando em minhas próprias correntes. Corri mais do que minhas pernas aguentavam e caí. Dessa vez ele não poderia me ajudar. Ele não era daqui e era justamente aqui que eu estava presa.
Não havia como aguentar, não se eu quisesse minha liberdade e a mudança desejada. Não se eu quisesse realmente o novo, sem resquícios de um passado banal.
Haveria agora de caminhar sozinha, lutar sozinha e me arrebentar sozinha. Haveria então de me tornar tão enérgica quanto ele, tão profundamente certa no meu querer quanto ele e aí sim, me livrar de tudo aqui. Meus erros haveriam de ser só meus a partir de agora e então, nos meus passos em falso eu iria aprender a caminhar sozinha, sem cair. E foi só com essa certeza que pude me libertar da figura daquele menino. Libertação necessária, desejada e mais que essencial na minha aprendizagem. Eu haveria de dizer um dia que também não sou daqui. E a passos lentos eu soube que deveria seguir. Me sentia renovada quando finalmente conseguia dar um passo, ser um passo e conhecer outros lugares e outros passos. Era um consolo talvez saber que sozinha, eu conseguiria. Mas ele me fazia falta, é bem verdade. Seu colo me fazia falta, mas eu sabia e mais do que isso, eu sentia que deveria caminhar só. E essa minha solidão me fazia renovar, transformar a mim mesma diante das coisas e sentia que a liberdade tão desejada estava diante de mim. Eu precisava encontrá-la só. Meu erro grande foi me julgar livre ao me encontrar com ele. Não eu não era, o que eu julgava ser liberdade era apenas um desejo profundo e arraigado de libertação. Desse desejo fiz minha verdade, mas não, nunca fui livre. Era somente só que poderia ser, era somente só que poderia percorrer milhões de caminhos e cair milhões de vezes ao encontro de minha liberdade tardia.
Justamente por não ser livre e me julgar assim que me contradisse muitas vezes junto a ele. Fui um pouco dele e ele um pouco de mim, mas sem saber que não era livre. Eu precisava descobri que não, que jamais havia sido livre pra poder me libertar. Me libertar de mim mesma antes de tudo. Antes de tudo era a mim mesma e de mim mesma que queria me libertar.

- Ele parece ser de outro mundo.

Isso não saiu da minha cabeça nos momentos que se seguiram daquela conversa informal. Era porque talvez era a mesma impressão que eu tinha e isso me pareceu estranhamente correto: ele não era desse mundo. E eu me agarrei de mais porque justamente esse não ser daqui me livrou do inferno que era meu mundo. Meu pequeno grande mundo que tanto me oprimia e que precisava ser destruído, exterminado. Foi esse não ser daqui que me fez desejar abominar tudo aqui e nesse meu ímpeto incontrolável de sair daqui, sair desse mundo eu não percebi que não tinha alcançado minha liberdade. Ainda havia prisão em mim.
Mas agora sim, agora eu sei que preciso caminhar sozinha. É sozinha que deveria encontrar a minha verdadeira mudança pra depois, quem sabe o encontrar. O encontrar longe das amarras que me prendem, longe dos meus medos e pesadelos e de minha pequenês de ser daqui. Encontrá-lo sim, logo ele, que parece ser de outro mundo. Logo ele que me ensinou a voar.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Pateticamente iguais.

São tão iguais os que propõem uma suposta mudança que me enoja, as vezes me enoja. No mínimo, me entristece saber que são iguais. E se perdem em suas particularidades tão genéricas que se tornam mercadologicamente feitos de esteriótipos e só.
Mostram um profundo que esconde um vazio, um patético vazio disfarçado em palavras bonitas e iguais. São iguais.
Brincam com as palavras e juram saber brincar, mas através da brincadeira não mudam as palavras, elas continuam cantando o velho mundo.
Não há o desejo de destruição das coisas ruins e sim um culto, culto ao que julgam profundo e em sua miopia diária não enxergam que na verdade, não mudam nada. Suas palavras, são mudas.

No silêncio, cantam o desencanto do mundo e acreditam piamente que mudam, ao menos mudam a si próprios assim, mas não. Continuam velhos, caducos, continuam a celebrar o asco e cultivam como planta sua rotina auto-destruitiva. E só.
Seja o que quiser ser, viva o que quiser viver, plante sempre o que desejar colher; Liberdade só depende de você.