Acordou às quatro da madrugada com o barulho das balas varando a cozinha. Temeu, não o medo que se sente quando nos vemos perto do fim ou perto de algo que tende ao fim mas sim o medo de se ser menos do que uma bala.
Uma bala de chumbo, bala comum, dessas que varam a cidade todos os dias e por isso mesmo temeu mais do que nunca ser menos do que aquilo. Como poderia ser menor do que uma bala? Como poderia perde-se em uma bala de menos de um centímetro de diâmetro.
Empalideuceu-se na cogitação do talvez acabar-se ali, menos do que uma bala, uma simples bala. Não queria acreditar que aquela bala era maior que o mundo, seu mundo.
Seu coração batia forte, não por medo de acabar ali. Não temia o fim em si, não temia deixar de existir pois mal sabia o sigificado de sua existência mas temia sim, ser menor do que uma bala, deixar que a bala levasse sua existência embora, varresse teu eu e terminasse dentro daquela bala. O que era a vida afinal? Se em menos de três segundos poderia terminar em um projétil, algo inanimado, sem vida. A vida poderia terminar na não-vida, o que poderia ser viver então?
Poderia gritar, correr, fechar os olhos mas não. Ficou ali, parada. Não podia se mexer pois sentia-se pequena demais para mexer.
Viu tudo que vivera, tudo que fora e sentiu-se no vácuo. Àquele silêncio que tampa os ouvidos e deixa surdo se fez e pôde sentir sua respiração como nunca. Sorriu então.
Havia entendido que ser menor que uma bala não significa que a vida seja vã, pequena ou sem nexo, mas o contrário. É a tenacidade da linha que separa o vivo do não-vivo que faz da vida uma dádiva. Ou mais que isso, mais do que isso porque a vida não é divina, nem sublime. É inconstância, furacão.
Atingiu-a então.
Dentre o mar de balas que varavam a cozinha, uma delas atingiu em cheio o seu coração. Lentamente diminui a velocidade das batidas e no sangue, via-se a vida escorrendo. Respirando com dificuldade, estendeu as mãos, o máximo que pode e sorriu.
Uma última lágrima, anunciando o fim da vida ou o começo dela. Sentiu ali, naquele instante último o quão intenso era viver. O quão grandioso é estar vivo.
sábado, 17 de abril de 2010
d água.
Bateram à sua porta tarde da noite já. Atendeu entre a brecha da porta, desconfiado como sempre. Quem poderia ser essa hora afinal? quem poderia gostar tanto de incomodar? Viu que era uma mulher, de casaco azul e um semblante tão simples e sem expressão que era quase invisível. Não a conhecia, mas a odiou desde a primeira vez.
Não perguntou o que ela queria, apenas balançou a cabeça como quem pergunta: O que foi? E manteve o olhar carrancudo no rosto.
- Moço, me arranja um copo d água, por favor.
Ele não pode acreditar naquilo. Meu Deus do céu, pensou, isso lá eram horas de bater na porta de alguém pra pedir água?!
- E pra que diabos você quer água?! Perguntou à mulher com indignação.
- Tenho sede, ela respondeu.
Tinha sede sim aquela mulher, mas isso pouco importava pra ele ali, naquele momento. Aliás, pouco importaria a sede de alguém em qualquer tempo. Era tão perdido em si mesmo que tanto fazia sentir sede ou fome, tanto fazia viver ou morrer. Odiava o mundo e tudo que o habitava. Odiava a vida como se fosse algo separável e sujo. Algo exterior e contaminoso. Algo que merecia seu desprezo.
- Entre.
- Desculpa moço, não queria tomar o seu tempo. Só quero um copo d água.
- E porque não tomar meu tempo? Tome, tome logo, leve todos esses relógios daqui vai, dou a água mas também te dou meu tempo, esses relógios são teus agora. Não aguento mais tanto tic-tac na minha cabeça e não quero esse tempo miserável. Tome! Leve-os daqui, esses relógios. Leve-os para longe!
A mulher pegou todos os relógios, recolheu-os em seus braços e disse:
- Está bem, eu os carrego comigo. Mas quero um copo d água.
É claro que apesar de tudo ele iria dar um copo d água pra ela mas era inevitável fazer uso daquela oportunidade única de escarrar o mundo pra fora.
- Está bem, eu vou lhe dar sua água mas tente me ouvir um instante. Tente entender que não é porque eu lhe dou um copo d água que aceito o mundo. eu não sei quem você é, mas você bateu em minha porta e me fez lembrar o quanto eu odeio o mundo. E eu te convidei para entrar como quem aceita o mundo mas isso não é verdade. Isso é uma tremenda mentira. Eu não aceito o mundo. Eu não aceito você. Minha ira é tão grande que se eu pudesse eu amassava o mundo como se amassa folha de papel e jogava numa lata de lixo, tampava e esquecia. Coisa grotesca ter que viver! E veja bem, eu sou obrigado a viver todos os dias e toda vez que respiro sinto raiva de meus pulmões funcionarem, sinto raiva desses relógios que te dei também. Perda de tempo querer ganhar tempo. A gente perde sempre nessa imundisse de mundo! queria explodir o mundo, chutar o mundo, queria cuspir no mundo!
E realmente cuspiu, na mulher. No entanto seu cuspe não teve forças pra chegar até ela e escorreu pelo seu queixo, descendo até o peito.
- É sempre assim, a gente cospe no mundo e ele chove na gente!
Mas que seja, tanto faz e não é porque te deixei entrar que aceito o mundo, tá entendendo?
A mulher disse delicadamente:
- Estou com sede. Preciso de um copo d água, por favor.
Ele então se recompôs e foi buscar o copo d água jurando a si mesmo que não, jamais, não aceitava aquele mundo imbecil.
- Está aqui sua água.
A mulher pegou o copo com vigor e bebeu a água de olhos fechados como se sentisse cada gota lavar sua alma.
Devolveu o copo. Olhou bem pra aquele homem e disse:
- É como a vida que chega sutil, em gotas d água e de repente chove em temporal. Mas não deixa de ser vida, lúcida ou em delírios, se bastando por si. Só a vida, capaz de mudar o mundo e fazer do desejo intenso de mudança, explosão.
Com os olhos cheios d água, ele caiu no chão.
Ajoelhado, como numa prece, disse:
- Eu amo você, vida.
Não perguntou o que ela queria, apenas balançou a cabeça como quem pergunta: O que foi? E manteve o olhar carrancudo no rosto.
- Moço, me arranja um copo d água, por favor.
Ele não pode acreditar naquilo. Meu Deus do céu, pensou, isso lá eram horas de bater na porta de alguém pra pedir água?!
- E pra que diabos você quer água?! Perguntou à mulher com indignação.
- Tenho sede, ela respondeu.
Tinha sede sim aquela mulher, mas isso pouco importava pra ele ali, naquele momento. Aliás, pouco importaria a sede de alguém em qualquer tempo. Era tão perdido em si mesmo que tanto fazia sentir sede ou fome, tanto fazia viver ou morrer. Odiava o mundo e tudo que o habitava. Odiava a vida como se fosse algo separável e sujo. Algo exterior e contaminoso. Algo que merecia seu desprezo.
- Entre.
- Desculpa moço, não queria tomar o seu tempo. Só quero um copo d água.
- E porque não tomar meu tempo? Tome, tome logo, leve todos esses relógios daqui vai, dou a água mas também te dou meu tempo, esses relógios são teus agora. Não aguento mais tanto tic-tac na minha cabeça e não quero esse tempo miserável. Tome! Leve-os daqui, esses relógios. Leve-os para longe!
A mulher pegou todos os relógios, recolheu-os em seus braços e disse:
- Está bem, eu os carrego comigo. Mas quero um copo d água.
É claro que apesar de tudo ele iria dar um copo d água pra ela mas era inevitável fazer uso daquela oportunidade única de escarrar o mundo pra fora.
- Está bem, eu vou lhe dar sua água mas tente me ouvir um instante. Tente entender que não é porque eu lhe dou um copo d água que aceito o mundo. eu não sei quem você é, mas você bateu em minha porta e me fez lembrar o quanto eu odeio o mundo. E eu te convidei para entrar como quem aceita o mundo mas isso não é verdade. Isso é uma tremenda mentira. Eu não aceito o mundo. Eu não aceito você. Minha ira é tão grande que se eu pudesse eu amassava o mundo como se amassa folha de papel e jogava numa lata de lixo, tampava e esquecia. Coisa grotesca ter que viver! E veja bem, eu sou obrigado a viver todos os dias e toda vez que respiro sinto raiva de meus pulmões funcionarem, sinto raiva desses relógios que te dei também. Perda de tempo querer ganhar tempo. A gente perde sempre nessa imundisse de mundo! queria explodir o mundo, chutar o mundo, queria cuspir no mundo!
E realmente cuspiu, na mulher. No entanto seu cuspe não teve forças pra chegar até ela e escorreu pelo seu queixo, descendo até o peito.
- É sempre assim, a gente cospe no mundo e ele chove na gente!
Mas que seja, tanto faz e não é porque te deixei entrar que aceito o mundo, tá entendendo?
A mulher disse delicadamente:
- Estou com sede. Preciso de um copo d água, por favor.
Ele então se recompôs e foi buscar o copo d água jurando a si mesmo que não, jamais, não aceitava aquele mundo imbecil.
- Está aqui sua água.
A mulher pegou o copo com vigor e bebeu a água de olhos fechados como se sentisse cada gota lavar sua alma.
Devolveu o copo. Olhou bem pra aquele homem e disse:
- É como a vida que chega sutil, em gotas d água e de repente chove em temporal. Mas não deixa de ser vida, lúcida ou em delírios, se bastando por si. Só a vida, capaz de mudar o mundo e fazer do desejo intenso de mudança, explosão.
Com os olhos cheios d água, ele caiu no chão.
Ajoelhado, como numa prece, disse:
- Eu amo você, vida.
sexta-feira, 16 de abril de 2010
sp.
Caminhei por entre aquela cidade como se descobrisse um mundo novo, não bastava apenas caminhar, eu tinha que sentir um pouco de mim naquilo tudo. Tinha também que sentir que tudo saía de dentro de mim ao mesmo tempo que me engolia. Era deveras aterrorizante, mas um terror que corroía sem que se percebesse. Era curioso e isso me atraía.
Aqueles arranha-céus arranhavam mais que os céus, arranhavam algo dentro de mim que não sabia o quê. Um quê de vazio ou de não preenchimento sempre relutava pra ser sentido, vivido e interagido no cotidiano. O que eu poderia entender daquilo tudo? Eu era só mais uma num todo tão conturbado.
Eram tantas coisas diferentes que a cabeça doía. Tantos anúncios e relógios que o amargo gosto de perde-se aos poucos pairava sempre, reinava sempre. E aquilo tudo parecia tão maior do que eu, aqueles prédios eram tão maiores do que eu mas não me deixei intimidar, acredite. Não me deixei intimidar dessa vez. Dessa vez tentei sentir o mundo nas mãos. Sim! Aquilo tudo, aquele amontoado de coisas cabia sim na palma da minha mão, pela primeira vez.
Olhei pros carros solitários e reparei, uma pessoa em cada um, cada uma fazendo alguma coisa pra passar o tempo no trânsito parado. Será que sonham, pensei. Será que sentem? Cada um é tão particular e é tão absurdo meu deus, tão absurdo pensar em como nos faz tão igual a grande máquina do mundo.
Reparei que a cidade das pluralidades e das milhares e milhares de pessoas era também a cidade da impessoalidade. Era difícil, muito difícil conhecer alguém ali. Eram só pessoas passando, muitas, muitas delas passando, passando e só. E não eram rostos apenas, eram rostos cansados, amargos com um certo sabor de desilusão. Até os sonhos, será que até os sonhos a grande máquina era capaz de roubar?!
Não tinha resposta pra todas as perguntas que ficaram martelando em minha cabeça enquanto andava por aquela cidade. Mas tinha em mim um desejo de mudar tudo aquilo, que de tão grande cabia na palma da mão. Tinha também o olhar curioso de menina que descobre o quão intenso é o próprio descobrir.
Aqueles arranha-céus arranhavam mais que os céus, arranhavam algo dentro de mim que não sabia o quê. Um quê de vazio ou de não preenchimento sempre relutava pra ser sentido, vivido e interagido no cotidiano. O que eu poderia entender daquilo tudo? Eu era só mais uma num todo tão conturbado.
Eram tantas coisas diferentes que a cabeça doía. Tantos anúncios e relógios que o amargo gosto de perde-se aos poucos pairava sempre, reinava sempre. E aquilo tudo parecia tão maior do que eu, aqueles prédios eram tão maiores do que eu mas não me deixei intimidar, acredite. Não me deixei intimidar dessa vez. Dessa vez tentei sentir o mundo nas mãos. Sim! Aquilo tudo, aquele amontoado de coisas cabia sim na palma da minha mão, pela primeira vez.
Olhei pros carros solitários e reparei, uma pessoa em cada um, cada uma fazendo alguma coisa pra passar o tempo no trânsito parado. Será que sonham, pensei. Será que sentem? Cada um é tão particular e é tão absurdo meu deus, tão absurdo pensar em como nos faz tão igual a grande máquina do mundo.
Reparei que a cidade das pluralidades e das milhares e milhares de pessoas era também a cidade da impessoalidade. Era difícil, muito difícil conhecer alguém ali. Eram só pessoas passando, muitas, muitas delas passando, passando e só. E não eram rostos apenas, eram rostos cansados, amargos com um certo sabor de desilusão. Até os sonhos, será que até os sonhos a grande máquina era capaz de roubar?!
Não tinha resposta pra todas as perguntas que ficaram martelando em minha cabeça enquanto andava por aquela cidade. Mas tinha em mim um desejo de mudar tudo aquilo, que de tão grande cabia na palma da mão. Tinha também o olhar curioso de menina que descobre o quão intenso é o próprio descobrir.
quinta-feira, 15 de abril de 2010
hã.
Absorvi o que pude daquelas palavras, suguei com toda força aquelas palavras que não me diziam nada. Tentavam e aquela tentativa incontrolável de dizer alguma coisa foi a que me fez absorver palavra por palavra. Mas quando mais absorvia mais me via inundada de um vazio que só me puxava. Lamentei não poder fazer mais do que balançar a cabeça e ouvir. Ouvir o máximo que eu pudesse, ouvir cada palavra e tentar apertá-las até que dali saísse alguma coisa. Mas nada, nada acontecia. Eram só palavras vazias, coisas não inteligíveis, indecifráveis e vazias por si. Eram distantes e eu, eu só balançava a cabeça.
De que adianta dizer: - perdão, pode repetir. E começar tudo de novo, tentar absorver novamente alguma coisa daquelas palavras que não entravam, não se encaixavam, não diziam nada! E então, eu fingia entender e concordar com cada palavra. Não podia discutir aquilo que não dizia nada pra mim. Não podia discutir sobre coisas que me pareciam vazias, absortas e muitas vezes patéticas.
Comecei a sentir pena, compaixão. Não sabiam se comunicar, pobres homens, não sabiam dizer nada. E me senti estranha por querer gritar ao menos uma vez que todas aquelas conversas eram monólogos afinal, eu estava ali e não estava, eu era ali e não era.
Quis chorar, mas não haviam lágrimas e me surpreendi com a dor no peito que sentia. Surpreendi por ela ser tão grande e não querer sair.
Reparei um pouco mais e notei. Notei que não era só eu que não entedia nada, não era só eu que fingia! Vi diversas pessoas conversando e balançando a cabeça. Ora, era claro que elas estavam fingindo entender.
Então não me senti tão só, não era só eu que não compreendia, não era só eu que não absorvia, eram todos os homens. Todos, sem excessão, fingiam entender o que sequer escutavam atentamente.
Foi então que uma estranha sensação me invadiu. Pude ver que não só eu, mas sim todos os homens haviam esquecido a própria linguagem. Os homens haviam esquecido a linguagem com que os homens se comunicam. Não falavam entre homens, falavam entre coisas, coisamente.
De que adianta dizer: - perdão, pode repetir. E começar tudo de novo, tentar absorver novamente alguma coisa daquelas palavras que não entravam, não se encaixavam, não diziam nada! E então, eu fingia entender e concordar com cada palavra. Não podia discutir aquilo que não dizia nada pra mim. Não podia discutir sobre coisas que me pareciam vazias, absortas e muitas vezes patéticas.
Comecei a sentir pena, compaixão. Não sabiam se comunicar, pobres homens, não sabiam dizer nada. E me senti estranha por querer gritar ao menos uma vez que todas aquelas conversas eram monólogos afinal, eu estava ali e não estava, eu era ali e não era.
Quis chorar, mas não haviam lágrimas e me surpreendi com a dor no peito que sentia. Surpreendi por ela ser tão grande e não querer sair.
Reparei um pouco mais e notei. Notei que não era só eu que não entedia nada, não era só eu que fingia! Vi diversas pessoas conversando e balançando a cabeça. Ora, era claro que elas estavam fingindo entender.
Então não me senti tão só, não era só eu que não compreendia, não era só eu que não absorvia, eram todos os homens. Todos, sem excessão, fingiam entender o que sequer escutavam atentamente.
Foi então que uma estranha sensação me invadiu. Pude ver que não só eu, mas sim todos os homens haviam esquecido a própria linguagem. Os homens haviam esquecido a linguagem com que os homens se comunicam. Não falavam entre homens, falavam entre coisas, coisamente.
domingo, 11 de abril de 2010
palavriado.

Algumas palavras não bastariam, mas era apenas o que tinha naquele momento. Imensidão de pensamentos mas poucas palavras. Nunca saiam como deveria ou planejava. Teimavam em contradizer o que se sente e descrever o que se forma na cabeça, mas não conseguiam.
Odiava, com toda a sua força as palavras. Eram a voz, a voz do mundo e da vida, mas não expressavam por completo e isso a deixara agonizando, sozinha, por um longo tempo, várias vezes. Triste complexidade que insistia em pairar.
Eram letras, números, pontos e etc que a deixavam perdida, pois não podiam dizer mais do que se espera ouvir de alguém. As palavras pouco surpreendiam, eram sempre iguais.
No entanto, era isso que tinha naquele momento: algumas palavras. Palavras essas que tentavam expressar o que não lhe deixava dormir e o peso do mundo que se faz quando se pensa sobre o mundo e sobre si. Sobre mudar a si, mudar o mundo, mudar, mudar as coisas e mudar mais um pouco, mudar profundamente, mudar impacientemente. Impacientemente, perdeu a paciência. Algumas palavras não eram o suficiente, nunca seriam e quanto mais ela dizia, mais se repetia e mais se irritava! E se talvez se calasse? Se talvez deixasse de dizer, de repetir, de reverberar as coisas? Se assim fizesse cairia no luto de poucos, que esquecem a linguagem dos homens. Mas hoje, a linguagem dos homens é a linguagem das coisas e isso, isso não é certo! Mas como mudar se as próprias palavras são iguais, expressam as mesmas coisas, o mesmo tempo, as mesmas causas.
Tanto faz.
Eram apenas poucas palavras que tinha naquele momento e colocá-las pra fora era tão difícil quanto mudar o mundo. Estava emocionada, talvez desde que falara pela primeira vez, mas ali, suas pernas tremiam. Não estava frio, mas haviam borboletas em seu estômogo e algumas lágrimas insistiam em querer descer enquanto se preparava - Sim! exigiam um grande preparo àquelas palavras... Era estranho se sentir assim porque as palavras nunca foram suas amigas íntimas, elas sempre embolavam o que era sentido e agora, naquele momento ímpar, eram só algumas palavras que ela tinha e no entanto tinha que escolher com todo cuidado, com toda delicadeza, com todo zelo possível.
Aquelas poucas palavras, as únicas que tinha naquele momento, iriam responder a pergunta que acabara de ouvir do atendente daquela lanchonete no centro da cidade:
- Você quer alguma coisa?
Bem, querer alguma coisa. Era claro que ela queria, ela queria tantas coisas, ela queria dizer tantas coisas e queria contar tantos sonhos naquele momento! Queria poder dizer que desejava ter a vida nas mãos e sentí-la como ninguém a não ser nós mesmos podemos sentir e que queria tudo diferente, um lugar diferente, onde seres humanos existissem de verdade. Verdadeiramentes humanos, sabe como é, nada de coisas no comando, nada de tempo das coisas, nada de sofrimentos e sentimentos banais. Eu queria também, ela diria, eu queria também engolir o mundo inteiro com a boca, mastigá-lo e cuspi-lo totalmente refeito, novo, diferente. Algo que nascesse de dentro de mim antes de tudo sabe? Algo que ultrapassasse qualquer regra de liberdade que torna a liberdade tão frívola e inalcansável. Queria também ter asas e voar tão alto como se eu não podesse voltar ao chão e ao mesmo tempo eu queria não sair do chão enquanto eu voasse. Queria as coisas por inteiro, por fim. Nada tão separado, fragmentado e morto como é. Ela realmente queria dizer tudo isso e tudo isso, sabe moço, tudo isso não chegaria perto do que sentia naquele momento enquanto as pernas tremiam. Sim, minhas pernas tremem enquanto você me pergunta o que eu quero moço, tremem porque eu quero tanta coisa que não consigo expressar! Tremem porque quando penso no que quero lembro que tô viva e que sou vida, mais, muito mais do que apenas existir, eu tô tão viva! E meu coração pulsa de um jeito que me lembra que não tem volta o caminho da vida. Tanta coisa, tanta coisa, que a lágrima rolou sem que percebesse.
- Você quer alguma coisa? Disse novamente o moço atendente e isso a fez despertar.
Lembrou que tinha apenas algumas palavras e que deveria escolher com muito zelo, muito cuidado, com muito sentimento. Eram as únicas palavras que podia usar naquele momento e criava coragem pra dizer o que se passava na cabeça, criava coragem para proferir como discurso épico triunfal aquelas palavras, aquelas poucas palavras que tinha ali, naquele momento que passava como furacão e brisa.
- Não, obrigada.
Foi isso que disse por fim. E saiu da lanchonete emocionadamente feliz. Era isso que tinha a dizer porque sabia que por mais que disesse, nada iria sair, as palavras nunca iriam preencher o que sentia.
Saiu pulando pelas calçadas enquanto sentia a respiração. Com a mão no peito então, sentindo as batidas daquele órgão esquisto e pulsante, repetiu em pensamento: eu tô viva.
segunda-feira, 5 de abril de 2010
Medrosamente.
Ao toque de recolher todos foram para casa. Mas não havia toque de recolher, não se ouvia barulho nas ruas desde o pôr do Sol. Só eles ouviram e se esconderam. Tracancaram suas casas, esconderam sonhos e assim, esconderam-se da vida. Não importava mais, o medo havia dominado aquele lugar.
Ao sinal de qualquer tremor, se apavoravam. Até descobrirem que na verdade não, a Terra não estava tremendo e o mundo ainda não ia desmoronar sobre suas cabeças, na verdade era só alguém que tinha pisado um pouco mais forte e seus passos foram sentidos.
Pediam perdão por tudo, e permaneciam calados e com cara de luto eterno quando perguntavam sobre o que pensavam sobre o mundo. Vire e mexe alguém perguntava por incrível que pareça, vire e mexe eram obrigados a pensar sobre isso e sentiam pavor, pavor pela mudança, pelo novo, pelo mundo. Sentiam pavor pela vida inteiramente vivida.
Pediam perdão ao Estado quando infrigiam regras lutando por verdades acreditadas, por novos mundos e novos cotidianos. Pediam perdão por faltar o pão, afinal os justos não passam fome e pediam perdão à Deus pelos desejos da carne, amém. Quando ouviam notícia de algum menino de 12 anos que tivesse roubado algo por aí ou matado alguém diziam ser servo do diabo, usado pelo 'cão', mas não se falava em quem seria o 'cão' da história. O verdadeiro diabo e seus verdadeiros desejos eram sempre camuflados e todos aqueles que se escondiam ao toque de recolher eram submetidos ao dom da honestidade. Afinal, pediam perdão, eles sempre pediam perdão por serem roubados.
E olhavam os ponteiros do relógio como estátuas e então corriam, corriam porque o tempo corria também e eles precisavam se redimir, precisavam pedir perdão, pagar penitências, precisavam fugir da vida. Não percebiam que aquele relógio marcava um tempo não deles, um não-tempo, o tempo das coisas. Tempo que fugia como o tal diabo foge da cruz, tempo ilusório. Tempo que não permitia haver tempo de se construir a história. E de transformar a história.
O medo, ininterrupto em suas ações continuava dominando, mente e corações daqueles habitantes da desolação. Cegava, mais do que qualquer outra coisa, esse medo e não permitia que fosse vista a servidão voluntária dos que sempre pediam perdão.
E quando ouviam o toque de recolher que nunca havia tocado, se escondiam, trancafiavam-se e não mostravam seus rostos, suas idéias, sua vida. Porque era o tempo das coisas que ditava a hora de se recolher. Era o tempo das coisas e não da vida que fazia do medo senhor absoluto das multidões.
Até quando?
...
Tic Tac.
Ao sinal de qualquer tremor, se apavoravam. Até descobrirem que na verdade não, a Terra não estava tremendo e o mundo ainda não ia desmoronar sobre suas cabeças, na verdade era só alguém que tinha pisado um pouco mais forte e seus passos foram sentidos.
Pediam perdão por tudo, e permaneciam calados e com cara de luto eterno quando perguntavam sobre o que pensavam sobre o mundo. Vire e mexe alguém perguntava por incrível que pareça, vire e mexe eram obrigados a pensar sobre isso e sentiam pavor, pavor pela mudança, pelo novo, pelo mundo. Sentiam pavor pela vida inteiramente vivida.
Pediam perdão ao Estado quando infrigiam regras lutando por verdades acreditadas, por novos mundos e novos cotidianos. Pediam perdão por faltar o pão, afinal os justos não passam fome e pediam perdão à Deus pelos desejos da carne, amém. Quando ouviam notícia de algum menino de 12 anos que tivesse roubado algo por aí ou matado alguém diziam ser servo do diabo, usado pelo 'cão', mas não se falava em quem seria o 'cão' da história. O verdadeiro diabo e seus verdadeiros desejos eram sempre camuflados e todos aqueles que se escondiam ao toque de recolher eram submetidos ao dom da honestidade. Afinal, pediam perdão, eles sempre pediam perdão por serem roubados.
E olhavam os ponteiros do relógio como estátuas e então corriam, corriam porque o tempo corria também e eles precisavam se redimir, precisavam pedir perdão, pagar penitências, precisavam fugir da vida. Não percebiam que aquele relógio marcava um tempo não deles, um não-tempo, o tempo das coisas. Tempo que fugia como o tal diabo foge da cruz, tempo ilusório. Tempo que não permitia haver tempo de se construir a história. E de transformar a história.
O medo, ininterrupto em suas ações continuava dominando, mente e corações daqueles habitantes da desolação. Cegava, mais do que qualquer outra coisa, esse medo e não permitia que fosse vista a servidão voluntária dos que sempre pediam perdão.
E quando ouviam o toque de recolher que nunca havia tocado, se escondiam, trancafiavam-se e não mostravam seus rostos, suas idéias, sua vida. Porque era o tempo das coisas que ditava a hora de se recolher. Era o tempo das coisas e não da vida que fazia do medo senhor absoluto das multidões.
Até quando?
...
Tic Tac.
Desventuras
- Era meu Amante amado,
e não meu Amado amante.
Mais do que ninguém, ela sabia a diferença.
e não meu Amado amante.
Mais do que ninguém, ela sabia a diferença.
sexta-feira, 2 de abril de 2010
Vida.
Ficou estática. Não porque se esquecera como se mexer mas pelas pernas bambas diante da visão: era ela, nua, diante do espelho, viva. Estava viva e só agora percebia que estar viva só não bastava. Era ela ali, sim. Mas era mais que olhos, boca, nariz, seios, ventre, sexo, pernas e órgãos, órgãos e órgãos. Era ela mais nua do que nunca, mais viva do que nunca e não por descobri como que por encanto que estava viva e sim por reconhecer a si mesmo como vida. Era vida meu deus e tinha tanta sede, tanta fome de vida e estava nua.
Inefavelmente sentiu que jamais estivera tão nua e tão viva. Naquele instante teve certeza de que poderia voar quando quisesse, poderia correr quando e como quisesse e poderia viver mais do que nunca, como nunca, poderia ser vida e isso a deixava sem movimento. Extasiadamente sentia sua respiração ofegar e podia sentir batidas vindas do meio do peito. Não sabia o que era aquilo afinal, tinha descoberto cedo ou tarde que o amor não é feito pra quem tem coração pois quem o tem, não aguentaria o amor e ela o sentiu bater ao mesmo tempo que sabia ser feita de amor. Aquela confusão inigualável fez dela um segundo ímpar, paralisação do tempo intacta, observante de si mesma sem saber.
Como era bom estar viva e saber que isso não bastava. A vida, descoberta nos seus inesperados era tanto mas era um tanto quanto vazia de sentido sem transformação. A vida insurgia, renascia e ela ali, naquele quarto, em frente ao espelho, nua, descobria renascer. Descobria a vida e descobria nua. Era tão bom desarmar a si mesmo e colocar de lado aquele casaco pesado que insistimos em carregar por puro orgulho ou seja lá o que for, aquele tecido feio, enxarcado da lama mais terrível que humanamente podemos conhecer. E ela não, estava nua, sem o casaco pela primeira vez.
Começou a dançar, sozinha no quarto e nua. Como sempre fizera, mas desta vez sentindo cada passo. Dançava escondida uma dança sem música pois seus passos eram descompassados, desritmados, eram passos de quem dança nu. Olhou pro teto enquanto dançava e pôs-se a rir, a rir como nunca e se emocionar agradecendo a si mesma por estar viva, por estar vida. Ah! Como era bom ser vida ali e descobri assim e saber que estar viva não basta, era bom ser transformação. Sentiu a lágrima rolar pelo rosto e sorrindo disse a si mesma:
- É a vida que me chega na frente do espelho e me encanta por não se bastar.
Inefavelmente sentiu que jamais estivera tão nua e tão viva. Naquele instante teve certeza de que poderia voar quando quisesse, poderia correr quando e como quisesse e poderia viver mais do que nunca, como nunca, poderia ser vida e isso a deixava sem movimento. Extasiadamente sentia sua respiração ofegar e podia sentir batidas vindas do meio do peito. Não sabia o que era aquilo afinal, tinha descoberto cedo ou tarde que o amor não é feito pra quem tem coração pois quem o tem, não aguentaria o amor e ela o sentiu bater ao mesmo tempo que sabia ser feita de amor. Aquela confusão inigualável fez dela um segundo ímpar, paralisação do tempo intacta, observante de si mesma sem saber.
Como era bom estar viva e saber que isso não bastava. A vida, descoberta nos seus inesperados era tanto mas era um tanto quanto vazia de sentido sem transformação. A vida insurgia, renascia e ela ali, naquele quarto, em frente ao espelho, nua, descobria renascer. Descobria a vida e descobria nua. Era tão bom desarmar a si mesmo e colocar de lado aquele casaco pesado que insistimos em carregar por puro orgulho ou seja lá o que for, aquele tecido feio, enxarcado da lama mais terrível que humanamente podemos conhecer. E ela não, estava nua, sem o casaco pela primeira vez.
Começou a dançar, sozinha no quarto e nua. Como sempre fizera, mas desta vez sentindo cada passo. Dançava escondida uma dança sem música pois seus passos eram descompassados, desritmados, eram passos de quem dança nu. Olhou pro teto enquanto dançava e pôs-se a rir, a rir como nunca e se emocionar agradecendo a si mesma por estar viva, por estar vida. Ah! Como era bom ser vida ali e descobri assim e saber que estar viva não basta, era bom ser transformação. Sentiu a lágrima rolar pelo rosto e sorrindo disse a si mesma:
- É a vida que me chega na frente do espelho e me encanta por não se bastar.
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