Eu disse.
O fardo era pesado demais. Bem que avisei. As circunstâncias não ajudariam muito e eu agiria normalmente, por mais que não quisesse. Normalmente. Nunca de má fé.
Repugnei-me de mim mesma ao olhar-me frente a frente no monstruoso espelho que me engolia. Como eram tristes meus olhos! Eu, que nada mais era do que a absurda contradição entre estar vivo e não poder viver. Eu, que muitas vezes não tinha forças pra garantir o próximo passo. Renego, renego, renego e me calo. Isso não pode ser eu.
Mas eu mesmo disse,
disse sim.
Era tudo pesado demais e mais pesado do que a cabeça de um alfinete que guarda o Universo não poderia ser. Era isso, era bem isso o que eu sentia: um alfinete com um Universo concentrado, pronto pra explodir. Mas não explodia!
Não explodia e aí de mim! Aquele peso todo e eu e só. Era um pobre espírito que mal sabia dissertar sobre si mesmo.
Revigorava-me perceber a vida possível fora daqui.Ao mesmo tempo, ela estava aqui porque esse fora não era exterior, era apenas a negação do aqui e do agora e a destruição da caduquice tautológica e drástica que se faz. Revigorava-me saber que tudo pode ser diferente mas o alfinete continua aqui. Pesando e pesando e se fazendo parte minha.
Era pesado demais.
Mas continuaria a agir normalmente, só eu sei. Calaria pateticamente.
Covarde. Covarde e só. Ou não. Talvez as explosões tardem, mas nunca deixem de vir.
Seja o que quiser ser, viva o que quiser viver, plante sempre o que desejar colher; Liberdade só depende de você.