sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Trem.

Da janela do trem via o tempo passar. Todos os dias, a mesma rotina, às margens do mesmo rio, as mesmas construções e a mesma cidade. Aquela gigantesca onda de prédios cinzas e carros e carros e carros.
Interessante mesmo era sentar naquele banco, em frente a janela como se tudo passasse em um quadro a sua frente. Ao som de Mozart, Bethoven e tantos outros sentia vontade de valsar; muitas vezes se sentia dentro de um grande filme clássico ou quem sabe, uma super produção latino-americana de um terceiro mundo esquecido perante tanta riqueza por aí.
Interessante mesmo e triste, era analisar cada um que sentava ali também, no mesmo vagão. O cansaço nos rostos não era escondido, era explícito, era fato. E a paisagem de fora não lhe negava, pelo contrário: mostrava descaradamente o quão irracional era o lugar em que vivia.
Aquele rio poluído com pouca vegetação ao redor, empurrado pela ocupação humana parecia gritar pedindo socorro. Fábricas e mais Fábricas soltando fumaças ou dejetos ao leito do rio se erguiam em suas margens enquanto, do outro lado o trem passava, com espectadores desatentos que não percebiam nem a feiúra de fora, nem a música de dentro.
Fumaça, prédios e tanta gente. Toda vez que descia do metrô indo à plataforma do trem pensava muito sobre tudo o que via ali de cima. Eram tantos os carros, as fábricas, as compras, a infelicidade. Infelicidade pois ninguém parava ali, ninguém pensava ali nem muito menos questionava o por quê. Apenas seguiam. Seguiam como cegas ovelhas, ovelhas mudas indo a caminho da destruição.
E de vez em quando, lá de cima, via o trem chegar correndo, silencioso de longe e seguindo os trilhos construídos para que por ali, ele pudesse passar. Talvez a vida fosse assim também.
Descia as escadas todos os dias e ia em direção ao trem. Sentava no banco em frente a janela e via tudo passar pensando também em quantas pessoas pararam pra ver tudo aquilo nos dias que se passavam ora quentes, ora muito frios. Sabia que em breve ia largar tudo aqui e não ia sentar no mesmo banco todos os dias, mas outras pessoas iriam ocupar o seu lugar.
E se perguntava afinal, quantas pessoas parariam para ver, sentir a tristeza daquele lugar. Quantas pessoas ouviriam aquela música.



"Embalando o dia-a-dia
a doce música,
a doce valsa da vida
Que não dizia,
não queria.
Só se fazia sentida
a doce valsa da vida."
Seja o que quiser ser, viva o que quiser viver, plante sempre o que desejar colher; Liberdade só depende de você.