
Aquele lugar não era um lugar qualquer: era mais um lugar. Não era igual aos outros nem tão pouco diferente. Homogeneamente desfigurado, se fazia nos rostos sofridos e desolados como o último recanto do fim do mundo.
Era o último lugar da Terra, esquecido, desolado, inconformado e ao mesmo tempo passivo já que a indignação havia se transformado em tédio no tempo que nem os céus respondiam as preces daquele povo.
Há tempos haviam desistido de pedir compaixão, há tempos haviam desistido de viver. No tempo e no espaço haviam se perdido os sonhos, os desejos e a vida. Eram sobreviventes como de um naufrágio, sobreviventes do mundo que assim se mostra.
Não tinham cultura, estudo, inteligência e nem belas roupas, belos rostos e nem fingiam belamente ser o que não eram. Eram tristes, passivos, tediosos e não fingiam mais do que isso.
Tinham lhe tirado tudo. Não tinham mais nada e tão pouco reclamavam porque até sua voz haviam tirado. E sobreviviam, se agarravam a sobrevida de não ser o que se deseja, das necessidades básicas e da aceitação de um deus morto.
A prova maior de que tudo ali era morto eram os urubus no cais do porto. Haviam muitos urubus comendo os restos da feira do dia anterior e comiam com gosto. Só eles comiam com gosto naquele lugar. Haviam urubus também no alto das capelas, soltando suas fétidas e moles feses em cima da cruz. Só eles não acreditavam no morto.
Não havia chuva e quando chovia, uma vez por ano era pela misericórdia do Cristo pregado na cruz que muitos ainda sobreviviam e recomeçavam a sobrevida. Recomeçavam porque as coisas iam pelos rios de águas, as poucas coisas que ainda tinham direito, iam junto com a chuva, por isso não reclamavam de não chover pois temiam a chuva.
Tinham aprendido a ter medo, mas um medo ameno, apático, medo de quem não tem opção. Tinham medo da própria sombra e não saiam de tarde, com medo do Sol se esconder e a escuridão reinar. Não viam as estrelas pois temiam o céu.
Os que nasciam ali sabiam que era o destino quem os havia colocado ali, não saiam jamais, nem de barco, nem de carro e nem haviam. Ficavam ali naquela vida interiorana e de fim de mundo sem saber o que acontece e não reclamavam.
Sabiam do mundo pelos rádios, mas nada fazia sentido porque nada do que se falava chegava ali. Alguém um dia reclamou no meio da rua:
- Mas que porra de lugar onde até os céus se esquecem de olhar!
E foi só, o único desabafo desde que aquele lugar era aquele lugar. Foi um, que logo depois sumiu nas águas por não aguentar aquele lugar e que logo depois voltou por achar incompreendivel o mundo de fora.
Permaneceram assim até a desolação da solidão assombrar de uma forma que não sabiam quem morava ao lado e temiam sair nas ruas com medo da sombra dos vizinhos. Trancaram suas portas, janelas e viviam em plena escuridão com medo do Sol, dessa vez, com medo dos céus e certos de que aquilo que viviam era castigo divino por preces insistentes. Talvez Deus não gostasse de ser importunado.
No ano de que falo, houve uma grande chuva naquele lugar, e ninguém saiu de suas casas por medo. Algumas casas foram levadas, mas outras permaneceram para continuar o legado do medo. E quando a chuva passou, abriram suas janelas e portas para ver o que restava do resto.
O que viram, impactou de tal forma que nunca mais puderam ser iguais: haviam flores brotadas no chão. Flores que trouxeram vida e tiraram o amargo do medo. Flores que trouxeram coragem e capacidade de não aceitar a apaticidade rejente. Flores que revigoraram, reedificaram e fizeram nascer flores, outras flores, onde antes havia o medo. Flores de transformação.