sexta-feira, 2 de abril de 2010

Vida.

Ficou estática. Não porque se esquecera como se mexer mas pelas pernas bambas diante da visão: era ela, nua, diante do espelho, viva. Estava viva e só agora percebia que estar viva só não bastava. Era ela ali, sim. Mas era mais que olhos, boca, nariz, seios, ventre, sexo, pernas e órgãos, órgãos e órgãos. Era ela mais nua do que nunca, mais viva do que nunca e não por descobri como que por encanto que estava viva e sim por reconhecer a si mesmo como vida. Era vida meu deus e tinha tanta sede, tanta fome de vida e estava nua.
Inefavelmente sentiu que jamais estivera tão nua e tão viva. Naquele instante teve certeza de que poderia voar quando quisesse, poderia correr quando e como quisesse e poderia viver mais do que nunca, como nunca, poderia ser vida e isso a deixava sem movimento. Extasiadamente sentia sua respiração ofegar e podia sentir batidas vindas do meio do peito. Não sabia o que era aquilo afinal, tinha descoberto cedo ou tarde que o amor não é feito pra quem tem coração pois quem o tem, não aguentaria o amor e ela o sentiu bater ao mesmo tempo que sabia ser feita de amor. Aquela confusão inigualável fez dela um segundo ímpar, paralisação do tempo intacta, observante de si mesma sem saber.
Como era bom estar viva e saber que isso não bastava. A vida, descoberta nos seus inesperados era tanto mas era um tanto quanto vazia de sentido sem transformação. A vida insurgia, renascia e ela ali, naquele quarto, em frente ao espelho, nua, descobria renascer. Descobria a vida e descobria nua. Era tão bom desarmar a si mesmo e colocar de lado aquele casaco pesado que insistimos em carregar por puro orgulho ou seja lá o que for, aquele tecido feio, enxarcado da lama mais terrível que humanamente podemos conhecer. E ela não, estava nua, sem o casaco pela primeira vez.
Começou a dançar, sozinha no quarto e nua. Como sempre fizera, mas desta vez sentindo cada passo. Dançava escondida uma dança sem música pois seus passos eram descompassados, desritmados, eram passos de quem dança nu. Olhou pro teto enquanto dançava e pôs-se a rir, a rir como nunca e se emocionar agradecendo a si mesma por estar viva, por estar vida. Ah! Como era bom ser vida ali e descobri assim e saber que estar viva não basta, era bom ser transformação. Sentiu a lágrima rolar pelo rosto e sorrindo disse a si mesma:
- É a vida que me chega na frente do espelho e me encanta por não se bastar.
Seja o que quiser ser, viva o que quiser viver, plante sempre o que desejar colher; Liberdade só depende de você.